CASOS DE CÂNCER DE PELE TÊM SALTO E MÉDICOS FAZEM ALERTA



O número de diagnósticos de câncer de pele no Brasil aumentou de forma expressiva na última década, acendendo um alerta para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) indicam que os registros da doença saltaram de 4.237 em 2014 para 72.728 em 2024. Especialistas apontam que o avanço resulta da combinação de fatores demográficos, ambientais e da ampliação da capacidade diagnóstica.


No Rio Grande do Norte, estimativas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontaram, em 2023, incidência de 110 casos por 100 mil habitantes de câncer de pele melanoma, considerado o tipo mais agressivo da doença. Para o câncer de pele não melanoma, mais frequente e com altos índices de cura quando diagnosticado precocemente, a estimativa foi de 3.460 casos.

Para o dermatologista Joseli Batista, da Liga Norte-Riograndense contra o Câncer, onde atua desde 2002, o envelhecimento da população é um dos principais motores desse avanço. “Cada vez mais, não só no Brasil, mas no mundo, há um índice maior de idosos. E o câncer de pele tem a ver com o sol, mas de uma forma cumulativa, o sol que a pessoa vai levando ao longo da vida, provocando alterações na pele, que terminam podendo desencadear o surgimento do câncer de pele”, explica. Segundo ele, quanto maior a expectativa de vida, maior também a probabilidade de desenvolver a doença.

Em 2024, a projeção nacional foi de 34,27 casos por 100 mil habitantes, índice próximo ao pico observado em 2023. Os maiores coeficientes se concentram no Sul e no Sudeste, com destaque para Espírito Santo (139,37) e Santa Catarina (95,65). Fora desse eixo, Rondônia registrou taxa elevada (85,11). No Norte e no Nordeste, embora as taxas permaneçam mais baixas, estados como Ceará apresentaram crescimento recente.

Batista ressalta que a exposição solar não atua de forma isolada e varia conforme características geográficas e individuais. “Tem pessoas que moram em lugares onde a intensidade da exposição ultravioleta é muito baixa, em lugares mais frios, mais afastados da linha do Equador, em que não é tão comum você ter câncer de pele mesmo em pessoas de pele mais clara”, afirma.

A maior incidência no Sul e Sudeste também está relacionada ao perfil populacional. “A gente vai pensar na cor da pele. São estados que não têm a mesma intensidade de sol que o Nordeste, mas, por outro lado, você vai ter uma população de pele mais clara”, pontua Joseli Batista. Ele explica que pessoas negras têm, de fato, uma proteção natural maior. “Quanto mais melanina, mais escura vai ser a pele, e a melanina serve como um protetor solar natural”, afirma, ressaltando que isso não elimina o risco.

Outro fator que ajuda a explicar o aumento dos registros é a ampliação do diagnóstico precoce. A SBD aponta que a alta de notificações se intensificou a partir de 2018, quando passou a ser exigido o preenchimento do Cartão Nacional de Saúde e da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) em exames de biópsia. Para o dermatologista da Liga, a evolução tecnológica também tem papel decisivo. “Nos últimos anos tornou-se mais comum o uso de recursos como a dermatoscopia. O dermatoscópio ajuda muito no diagnóstico do câncer de pele, principalmente de lesões mais iniciais, que muitas vezes não são identificadas apenas no exame clínico a olho nu”, observa.

Tipos de câncer e sinais de alerta

A dermatologista do Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol-UFRN/Ebserh), Ludmila Corral, vice-presidente da SBD/RN, lembra que o câncer de pele é o tipo mais comum da doença. “Existem três tipos: carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma, sendo este o mais agressivo e, se não diagnosticado precocemente, pode provocar metástases e levar ao óbito”, destaca.

Segundo ela, a principal boa notícia é que a causa da doença é conhecida. “Nós conhecemos a causa do câncer de pele e podemos preveni-lo. A exposição solar exagerada e desprotegida é a principal causa e os episódios de queimadura solar aumentam ainda mais o risco”, afirma.

Corral ressalta que, diferentemente de outros tumores, o câncer de pele costuma ser visível. “Qualquer pessoa pode ajudar a suspeitar de um câncer de pele e salvar uma vida”, diz. Ela aponta que, entre os principais sinais de alerta, estão “lesões que não cicatrizam e sangram facilmente, pintas ou manchas escurecidas de crescimento progressivo com mudanças de cor e formato”.

A dermatologista lembra que a chamada regra do ABCDE pode ajudar na identificação de um possível melanoma: “A de assimetria, B de borda irregular, C de cores diferentes, D de diâmetro maior que meio centímetro e E de evolução, quando a lesão cresce ou muda ao longo do tempo”, esclarece.

Ludmila Corral acrescenta que o câncer de pele pode surgir em qualquer região do corpo, inclusive “palmas, plantas, unhas, couro cabeludo e região genital”. Entre os principais fatores de risco estão histórico familiar, antecedentes pessoais da doença, pele clara que bronzeia pouco, cabelos e olhos claros, muitas pintas, queimaduras solares e exposição solar ao longo da vida sem proteção.
Acesso ao diagnóstico e desafios do SUS

A SBD aponta que usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) têm 2,6 vezes mais dificuldade para acessar consultas dermatológicas em comparação à saúde privada. Embora o número de atendimentos tenha se recuperado após a queda durante a pandemia, a diferença de acesso permanece.

Segundo Ludmila Corral, dermatologista do Huol, o principal desafio no SUS é a chegada do paciente ao especialista. “Em casos de suspeita, o usuário passa pela Unidade Básica de Saúde, é avaliado por um médico generalista e encaminhado para o dermatologista. Muitas vezes, há demora para essa consulta ocorrer”, afirma. Por outro lado, ela também destaca que parte da população demora a procurar atendimento. “Já atendi pacientes que demoraram mais de dois anos para procurar uma primeira consulta, achando que a lesão ia cicatrizar”, relata.

Na saúde privada, a busca costuma ser direta. “Se a escolha for acertada, por um bom profissional dermatologista da Sociedade Brasileira de Dermatologia, possivelmente esse diagnóstico será o mais precoce possível, até pela realização de exames como a dermatoscopia durante a consulta”, explica.

No Rio Grande do Norte, segundo Corral, há um diferencial importante. “Temos a triagem da Liga contra o Câncer, que visa minimizar o intervalo para a avaliação dos pacientes com câncer de pele”, afirma. O serviço permite que profissionais de saúde façam o encaminhamento com fotos das lesões para avaliação especializada.

Prevenção como estratégia central

Os especialistas reforçam que a proteção solar é fundamental e envolve um conjunto de atitudes. “Evitar exposição entre 9h e 15h, usar chapéu, camiseta, óculos escuros, procurar sombra e usar protetor solar com FPS 30 ou maior, reaplicando ao longo do dia”, orienta Ludmila Corral.

Para reduzir atrasos no diagnóstico e no tratamento, ela defende o fortalecimento da rede pública. “Ter mais profissionais dermatologistas em todas as esferas de atendimento seria uma maneira excelente de diminuir esse atraso”, conclui.

Para o dermatologista da Liga, Joseli Batista, também é interessante pensar na educação em saúde sobre o câncer de pele. “Para que a pessoa tenha a percepção, a possibilidade de reconhecer um sinal de câncer de pele, precisa conhecer. Então, a educação vai ajudar, sim, no diagnóstico precoce”, analisa.

Diante do cenário de crescimento da incidência, a SBD defende medidas urgentes, como ampliação do acesso a consultas, fortalecimento da prevenção e inclusão do protetor solar na lista de itens essenciais da Reforma Tributária, como forma de ampliar o acesso da população e reduzir desigualdades regionais.