PIB DO RN DEVE CRESCER 0,5% EM 2026, ABAIXO DA MÉDIA DO BRASIL E DO NORDESTE


O Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Norte deve crescer 0,5% em 2026, segundo projeção da Tendências Consultoria. O percentual, divulgado em junho, foi revisado para baixo em relação à estimativa anterior, de 1,4%, e ficou abaixo da média prevista para o Brasil (1,9%) e para o Nordeste (2,2%). A revisão negativa foi influenciada pelo desempenho mais fraco da indústria e da agropecuária no estado.

De acordo com a Tendências Consultoria, o setor industrial acumula queda de 17,9%, resultado influenciado pelo recuo de 29,9% no refino de petróleo e biocombustíveis, atividade que responde por mais da metade da produção industrial do estado. A projeção é feita a partir da análise da estrutura do PIB do estado e do desempenho recente dos principais setores da economia, como indústria, serviços e agropecuária.

Segundo a economista da Tendências Consultoria, Giuliana Folego, a queda sofrida pela indústria está ligada ao declínio da produção de petróleo em campos maduros e a interrupções operacionais no setor.

“Esse fraco desempenho vem na esteira das fortes altas registradas em 2023 e 2024, decorrentes de melhorias e do aumento da capacidade da Refinaria Clara Camarão. Mas agora a atividade sofre os efeitos da queda da produção em campos maduros e de uma série de interrupções operacionais”, explicou.

Segundo o coordenador-geral do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Norte (Sindipetro-RN), o desempenho recente do setor de petróleo tem impactado diretamente a economia do estado. Ele avalia que a queda nos investimentos ao longo da última década levou também à redução da produção, o que acaba refletindo no desempenho do PIB estadual.

“Quando cai investimento, cai produção, cai geração de riqueza, cai geração de emprego. Então, o setor de petróleo, nos últimos 10 anos, vem contribuindo negativamente para essa redução do PIB do Estado”, afirma.
Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do Estado do RN (Fiern), defende que o RN precisa enfrentar dois desafios estruturantes para consolidar um ambiente de negócios mais competitivo: o equilíbrio das contas públicas e a modernização da legislação ambiental.

“Um ambiente de negócios moderno, aliado à estabilidade fiscal e jurídica, permitirá que o estado aproveite todo o seu potencial econômico, transformando suas riquezas naturais em mais empregos, renda e qualidade de vida para a população”, defende Serquiz.

A consultoria também projeta retração para o setor da agropecuária em 2026, puxada principalmente pela queda esperada na produção de mandioca, leite, ovos e carne bovina. “A renda agropecuária do RN está concentrada em poucos produtos, o que torna o resultado agregado da agropecuária muito sensível a choques específicos, sejam eles climáticos, de mercado”, analisa Giuliana Folego.

A Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern) avalia que a revisão para baixo das projeções de crescimento da economia potiguar merece atenção, mas deve ser interpretada com cautela. No caso da agropecuária, a federação afirma que o desempenho dependerá de fatores que ainda podem evoluir ao longo do ano, como as condições climáticas, o comportamento dos mercados, o ambiente macroeconômico e o ritmo das exportações.

“É inegável que o setor enfrenta desafios importantes. A elevada variabilidade climática e a insegurança hídrica continuam impondo limitações à produção em diversas regiões do estado, enquanto o aumento dos custos de produção, especialmente com energia, transporte e insumos, reduz a competitividade de algumas cadeias produtivas”, disse a Faern em nota. “Somam-se a isso gargalos logísticos, dificuldades de acesso ao crédito para parte dos produtores e um ambiente regulatório que, em muitos casos, ainda encarece e retarda investimentos”, acrescenta.

Entre as prioridades defendidas pela Faern para fortalecer a agropecuária estão a segurança hídrica, a ampliação da infraestrutura de armazenamento e distribuição de água, modernização de sistemas de irrigação e aumento da eficiência no uso dos recursos hídricos, a fim de fortalecer políticas que proporcionem maior previsibilidade para os produtores.

“Da mesma forma, é importante aperfeiçoar o ambiente de negócios, com maior segurança jurídica, simplificação dos processos de licenciamento, redução da burocracia e intensificação das ações de abertura e consolidação de mercados para os produtos potiguares”, destaca a Faern.

Previsão de crescimento do PIB para 2027

Para 2027, a Tendências Consultoria projeta crescimento de 1,8% para o PIB potiguar, impulsionado pela retomada parcial da indústria. “Projeta-se recuperação da atividade econômica, com a retomada vindo tanto da indústria quanto da agropecuária — movimento oposto ao observado em 2026”, disse Giuliana Folego.

Em 2027, na indústria, a melhora é puxada pela recuperação parcial do refino de petróleo e álcool, além do avanço da fabricação de alimentos e da indústria de transformação. Na agropecuária, o crescimento do arroz e feijão ajuda a sustentar o setor, apesar das quedas esperadas em milho e carne bovina.

A Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec) disse que estimativas de crescimento estão sujeitas às dinâmicas dos mercados nacional e internacional. “A expectativa é de continuidade do crescimento econômico, impulsionado pela consolidação de investimentos estruturantes e pelo fortalecimento de setores nos quais o estado possui reconhecidas vantagens competitivas”, destaca a pasta em nota.

O estudo mostra que Bahia, Pernambuco e Ceará concentram a maior parte do PIB nordestino, enquanto o RN tem participação bem menor no cenário nacional. Em 2023, o estado respondeu por 0,9% do PIB do país, contra 3,9% da Bahia, 2,5% de Pernambuco e 2,1% do Ceará. Segundo a economista, “fechar essa distância de forma expressiva no curto ou médio prazo é pouco provável”, devido ao menor porte populacional e à base produtiva mais limitada do RN.

Vantagens competitivas da economia potiguar

Segundo o levantamento da Tendências, o RN apresenta vantagens competitivas que podem impulsionar seu crescimento nos próximos anos. “A presença consolidada na cadeia de petróleo, liderança em energia renovável e especialização em fruticultura irrigada formam uma base econômica relativamente”, revela a economista.
O presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, avalia que há a expectativa de uma nova fase de investimentos, impulsionada pelo processo de repower (processo de renovação dos projetos).

“Uma oportunidade para o setor é a garantia da venda de sua energia, hoje cortada por efeito de curtailment. Essas oportunidades podem estar associadas à atração de indústrias eletrointensivas e que têm interesse no uso de energia limpa”, cita Darlan Santos.

No setor da fruticultura, as regiões de Mossoró e Assú são referências nacionais em fruticultura irrigada, com destaque para a produção de melão voltada à exportação.

O presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do RN (COEX), Fábio Queiroga, revela que os produtores projetam um crescimento contínuo no volume de exportações para ampliar a presença nacional. “A abertura de mercados extremamente exigentes, como o chinês, traz a perspectiva de podermos ampliar bastante o volume de contêineres enviados ao exterior nos próximos anos”, explica.

O setor de serviços, principal componente da economia potiguar, tem no turismo um dos seus principais vetores de sustentação e dinamismo, segundo análise da consultoria. “O turismo continuará sendo um dos principais motores do desenvolvimento econômico do RN. O estado reúne atrativos consolidados e uma cadeia produtiva forte, que movimenta o comércio e os serviços em diversas regiões”, analisa a Fecomércio/RN.

Segundo o Sindipetro, o RN ainda tem grande potencial no setor de petróleo em terra, com cerca de 140 blocos com reservas que dependem de investimentos para entrar em produção. “O grande desafio é conseguir fazer a união de esforços entre a Petrobras e as empresas privadas que produzem petróleo no RN”, destaca Marcos Brasil.

Setor produtivo pede ambiente favorável aos investimentos

O presidente da Fiern, Roberto Serquiz, avalia que a indústria vem apresentando sinais de retomada. “No entanto, para transformar potencial em desenvolvimento sustentável, será fundamental criar um ambiente favorável aos investimentos, com mais segurança jurídica e infraestrutura adequada”, aponta.

Gargalos estruturais também limitam o crescimento de setores exportadores do estado, conforme o presidente do COEX. “Logística e escoamento é o nosso maior calcanhar de Aquiles. Precisamos de portos eficientes, fretes marítimos com preços competitivos e rotas confiáveis”, disse Fabio Queiroga.

Segundo Marcos Brasil, a retomada do crescimento do setor de petróleo no RN depende da realização de novos investimentos para reativar poços já perfurados e ampliar a produção. “São poços que já são perfurados, em torno de 700 poços, que se tiver uma manutenção eles vão voltar a produzir, aumentar a produção e aumentar a riqueza”, disse.

A Fecomércio RN avalia que o fortalecimento do turismo potiguar depende diretamente de avanços estruturais em áreas-chave da economia. “É fundamental avançar em infraestrutura, qualificação profissional e promoção contínua do destino para além do sol e mar”, destaca.