ESTRADA DO RN TERÁ CURSO ALTERADO PARA EXPLORAÇÃO DE MINA DE OURO
O Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) deu sinal verde para a empresa canadense Aura Minerals relocar trecho da BR-226 para explorar o ouro no subsolo do traçado da rodovia na altura do município de Currais Novos, sertão do Rio Grande do Norte.
Segundo a empresa, existem 670 mil onças troy de ouro escondidas embaixo da estrada, que serão mineradas dentro do projeto Borborema. Isso equivale a 20,8 toneladas, já que cada onça troy representa 31,1 gramas. Com a mudança de rota da BR, o projeto prevê agora retirar 1,5 milhão de onças de ouro durante duas décadas, que deve render mais de R$ 16 bilhões, ou cerca de US$ 3,06 bilhões.
A Aura adquiriu a mina em 2022, dois anos após estudo de viabilidade. Após período inicial, ela começou a produção comercial em setembro de 2025 e garantiu a extração de 15,7 mil onças no último trimestre do ano.
“Esse acordo representa um marco importante que acelera de forma significativa a geração de valor em Borborema”, disse Rodrigo Barbosa, presidente e CEO da Aura, em comunicado ao mercado no último dia 26.
A vida útil estimada da mina é de 20 anos e 5 meses, período em que a empresa espera ter receita líquida de US$ 3,06 bilhões (cerca de R$ 16 bilhões em valor atual). Para isso, ela leva em conta um preço médio do ouro de US$ 2.274 da onça ao longo de todos os anos operacionais.
Como o preço do ouro sofre variações, esse valor pode mudar significativamente. Hoje, o preço do ouro está perto de máximas históricas e com tendência de alta, impulsionado por tensões geopolíticas no Oriente Médio e a busca das pessoas por proteção em seu patrimônio.
Nesta semana, a onça de ouro estava avaliada no mercado internacional por US$ 5.155, segundo o portal de cotações do UOL.
Vista por satélite da região onde está o projeto Borborema
Imagem: Google Maps
O que diz o Dnit
A BR-226 perderá 5,3 km de seu traçado original, entre os quilômetros 146 e 150. No trecho há ainda duas linhas de telecomunicações em fibra óptica (uma aérea e uma subterrânea) e uma linha de energia. O novo trecho a ser construído será um pouco mais longo, com 6 km de extensão.
O Dnit informou à coluna que o acordo de cooperação técnica está em fase de assinatura entre as partes.
O novo traçado, diz, “será integralmente custeado pela empresa proponente, responsável pela elaboração dos projetos, execução das obras e serviços necessários, não resultando em qualquer ônus financeiro — direto ou indireto — para o Dnit”.
“Informamos ainda que a alteração somente será efetivada após a conclusão e liberação total do novo segmento da rodovia, garantindo a continuidade do tráfego e evitando prejuízos à população usuária da BR”, diz comunicado ao UOL.
De acordo com o cronograma da Aura, o tempo estimado para execução da obra é de 14 meses, com previsão de início em 14 de abril e entrega prevista para 30 de maio de 2027. Serão escavados no local um total de 327,8 mil m³.
Números do projeto Borborema
O projeto Borborema consiste em três concessões de lavra para exploração de ouro em uma área total de 29 quilômetros quadrados. Ele consiste em uma mina a céu aberto com exploração até 300 metros abaixo da superfície.
A mina apresenta uma alta taxa média de recuperação metalúrgica, de 92,1%, ou seja: de cada 100 gramas de metal contido no minério que entra na planta, 92,1 gramas são efetivamente recuperados na forma de concentrado ou produto final.
Os depósitos de ouro ocorrem dentro do chamado cinturão Seridó, uma área onde hoje está o Seridó Geoparque da Unesco, oficializado em abril de 2022 e que reúne seis municípios (Acari, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, Currais Novos, Lagoa Nova e Parelhas) e seus sítios históricos de importância internacional.
Segundo relatório de operação de 2025, a companhia possuía 198 mil onças já extraídas do projeto. Ao final de 2025, o custo operacional do projeto foi de US$ 1.009 por cada onça retirada,
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado do último ano foi de US$ 76,5 milhões.
Exploração antiga
O ouro na região de Currais Novos já era conhecido desde a década de 1940, quando garimpeiros descobriram o metal. Entre as décadas de 1970 e 1990, a empresa Xapetuba operou no local, mas o projeto acabou encerrado.
O geólogo e técnico em mineração do Seridó Geoparque Mundial da Unesco, Silas Samuel dos Santos Costa, explica que a mina era chamada de São Francisco, e atingiu seu auge de exploração entre os anos 1970 e 1980.
“Por conta da crise e da falta de água, a empresa não conseguiu mais fazer o beneficiamento do ouro, e a mina ficou parada muito tempo”, diz.
Ele explica que, para a nova fase da exploração, a Aura precisará de um novo licenciamento ambiental. Assim como toda atividade de mineração, ela causa impactos nas comunidades vizinhas. “Os impactos são a emissão de ruídos, poeira e ultravibração por conta do desmonte de rochas com explosivos”, diz.
“Falta uma relação maior com o Geoparque. A empresa nunca procurou o consórcio de municípios para uma governança responsável, para que se possa desenvolver a questão de compensação ambiental e programas de educação ambiental.”
Um lado positivo da empresa é que a água usada para beneficiamento do ouro é reaproveitada. “Eles fizeram tubulação do centro da cidade, que vai por 27 quilômetros até chegar na mina, onde eles têm um local para tratar esse esgoto”, explica.
Ao chegar na mina, o esgoto bruto entra na estação de tratamento do projeto. “Lá, eles tiram os resíduos sólidos para a água ser utilizada no beneficiamento do ouro. Ambientalmente, esse é um aspecto positivo”, diz.
Desde o início de fevereiro a coluna tenta conversar com algum responsável pela Aura, mas não houve indicação de fonte. A prefeitura de Currais Novos também foi procurada, mas não respondeu aos pedidos de entrevista. O espaço segue aberto, e a reportagem será atualizada em caso de retorno.
UOL
