CONGRESSO, STF E GOVERNADORES CRITICAM BOLSONARO, QUE SE REÚNE COM GENERAIS
Integrantes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e lideranças políticas de centro, da direita e da esquerda se manifestaram na tarde deste domingo (19) contra as declarações do presidente Jair Bolsonaro durante atos em seu favor em Brasília.
Em sua fala durante manifestação que tinha como alvo o Legislativo, o Judiciário e que pedia também intervenção militar, Bolsonaro afirmou que “não queremos negociar nada”, que “chega da velha política no Brasil” e “vamos fazer o possível para mudar o destino do Brasil”. Dezenas de manifestantes se aglomeraram para ouvi-lo em frente ao Quartel-General do Exército.
Horas após a fala, ele retornou ao Palácio da Alvorada, onde reuniu-se com seu núcleo militar. Chegaram lá os ministros da Casa Civil, general Braga Neto; da Defesa, general Fernando Azevedo; do Gabinete de Segurança Institucional, general Heleno Ribeiro e da Secretaria de Governo, general Luiz Ramos.
No Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso não fez menção ao presidente. O ministro, porém, comentou o ato e disse que “é assustador ver manifestações pela volta do regime militar”. “Só pode desejar intervenção militar quem perdeu a fé no futuro e sonha com um passado que nunca houve. Ditaduras vêm com violência contra os adversários, censura e intolerância. Pessoas de bem e que amam o Brasil não desejam isso”, afirmou.
Outro ministro do STF, Gilmar Mendes não se manifestou sobre o ato ou a participação de Bolsonaro. Porém, Gilmar compartilhou a mesma publicação de Barroso nas redes sociais.
"Não sei onde o capita está com a cabeça", disse à CNN o ministro Marco Aurélio Mello, ao se referir a Bolsonaro como capitão. "Não sei em que ele está respaldado. Conheço os militares. Observam a disciplina, a hierarquia e não apoiam maluquices", disse o ministro ao recordar que frenquentou a Escola Superior de Guerra, em 1983, Marco Aurélio, que é vice-decano da suprema corte, repetiu um bordão que lhe é característico: "Tempos estranhos!". Para o ministro, não há espaço para o que ele chama de retrocesso. "Os ares são democráticos e assim continuarão. Visão totalitária merece a excomunhão maior", disse.
Críticas do centro, direita e esquerda
No universo político, as críticas vieram também do centro e da direita. O Movimento Brasil Livre acusou o presidente de ser “mentiroso”. “O governo dele é o que mais liberou emenda parlamentar na história, distribuiu sim cargos ao centrão, sancionou fundão de R$ 2 bilhões, juiz de garantias, etc. e agora o bonitão aparece em ato com militantes para falar que ‘não vai negociar’”, afirmou em rede social.
O MDB publicou em suas redes sociais uma imagem do ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães com o texto: “Temos ódio e nojo da ditadura”. O partido não se referiu diretamente ao presidente da República ou ao ato deste domingo.
O PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu e depois rompeu, escreveu: “O PSL repudia atos antidemocráticos, motivo pelo qual Bolsonaro não faz mais parte do PSL. Neste documento, assinado por ele, promete “preservar as instituições e proteger o Estado Democrático de Direito”. Quem defende o AI-5 e o fechamento do Congresso não comunga dos nossos valores.”
O PSDB também criticou a participação do presidente da República no ato deste domingo. “O presidente eleito jurou obedecer à Constituição brasileira. Ao apoiar abertamente movimento golpista, coloca em risco a democracia e desmoraliza o cargo que ocupa. O povo e as instituições brasileiras não aceitarão”, disse o presidente do partido, Bruno Araújo (PE).
O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso disse que é “lamentável” a participação de Bolsonaro na manifestação. “É hora de união ao redor da Constituição contra toda ameaça à democracia. Ideal que deve unir civis e militares; ricos e pobres. Juntos pela liberdade e pelo Brasil”, declarou.
O presidenciável e apresentador Luciano Huck disse que “defender a ditadura promove a desordem e é inconstitucional”. Huck não mencionou Bolsonaro, mas afirmou que “só com democracia construiremos um país menos desigual e mais eficiente e afetivo. Neste momento, deveríamos investir nosso tempo em salvar vidas e combater a pandemia e suas consequências”.
No campo político da esquerda, que faz oposição a Bolsonaro, as críticas foram maiores. A presidente do PT, deputada Glesi Hoffmann, disse que a atitude de Bolsonaro foi uma “irresponsabilidade”. “Provoca aglomeração para fazer discurso político e incentivar ilegalidades. Receita perfeita para a tragédia”, afirmou. O líder do PT na Câmara, deputado Ênio Verri (PR), disse que o presidente da República “atenta contra a democracia”.
Ex-prefeito de São Paulo e candidato derrotado do PT nas eleições presidenciais em 2018, Fernando Haddad disse: “Até quando os democratas suportarão tanta provocação, sem nada fazer? O dia do fora já chegou!”. Também candidato derrotado em 2018, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, disse que “todos os limites já foram ultrapassados. E sobram razões jurídicas para retirá-lo da presidência: fraude eleitoral, crimes de responsabilidade e contra a saúde pública”.
O líder da minoria no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou que “Bolsonaro já incorreu em crime de responsabilidade inúmeras vezes. Atentou contra a Constituição, contra os poderes constitucionais, contra a democracia. Promoveu o ódio, exaltou o AI-5, um dos piores episódios da nossa história!”.
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), disse que, “para desviar o foco de suas absurdas atitudes quanto ao coronavírus e a sua péssima gestão econômica, Bolsonaro resolve atiçar grupelhos para atacar a Constituição, as instituições e o regime democrático. Bolsonaro não sabe e não quer governar”.
O núcleo mais próximo do presidente o defendeu. Seu filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal, disse que o “trabalho da extrema imprensa hoje é estimular discórdia entre os poderes e botar palavras na boca do presidente”. Segundo o deputado, “Bolsonaro não vira as costas para o povo”. A deputada Carla Zambelli, aliada fiel do presidente, compartilhou o vídeo do presidente no ato e disse: “Acabou a patifaria”.
Carta dos governadores
Alguns governadores de manifestaram neste domingo com críticas às falas do presidente Bolsonaro. Segundo João Dória (PSDB), governador de São Paulo, é "lamentável que o presidente da República apoie um ato antidemocrático, que afronta a democracia e exalta o AI-5". Doria disse ainda repudiar também "os ataques ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal. O Brasil precisa vencer a pandemia e deve preservar sua democracia,
Para o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), Bolsonaro quer "desviar o foco de suas absurdas atitudes quanto ao coronavírus e a sua péssima gestão econômica". Ainda segundo Dino, "Bolsonaro resolve atiçar grupelhos para atacar a Constituição, as instituições e o regime democrático. Bolsonaro não sabe e não quer governar. Só quer poder e confusão".
O Fórum Nacional de Governadores divulgou no sábado (18) uma carta aberta em defesa das recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o do Senado, Davi Alcolumbre. O documento, assinado por 20 governadores, diz que “o mundo vive uma das suas maiores crises, temos testemunhado o empenho com que os presidentes do Senado e da Câmara têm se conduzido, dedicando especial atenção às necessidades dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios brasileiros”.
Segundo o documento dos governadores, as declarações do presidente da República sobre a postura dos dois presidentes do Legislativo acaba “afrontando princípios democráticos que fundamentam nossa nação”. “A saúde e a vida do povo brasileiro devem estar muito acima de interesses políticos, em especial nesse momento de crise”, dizem os governadores.
