EXCLUSIVO: AS POSSIBILIDADES DE FUGA DE BOLSONARO E COMO A PF VEM AGINDO
Nesta terça-feira (25) o destino de Jair Bolsonaro (PL) começa a ser traçado. O país vai parar para assistir, a partir das 9h30, ao julgamento da denúncia que certamente tornará o ex-presidente e seus principais colaboradores de alto escalão réus por uma fracassada tentativa de golpe de Estado que quase pôs fim à jovem democracia brasileira. Entretanto, nos bastidores do poder e nas redações dos veículos de imprensa, um cenário parece ganhar mais relevância que a própria sessão do Supremo Tribunal Federal que deve acolher a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República: a possibilidade real e iminente de fuga do ilustre acusado.
Todos os indícios até aqui apontam para isso. No passado, inclusive no fim de seu mandato e nos primeiros dias de governo do presidente Lula (PT), quando o tenebroso 8 de janeiro de 2023 aconteceu, Bolsonaro havia dado no pé e se encontrava nos EUA, para onde partiu com o avião da FAB que serve aos presidentes, para não ter risco de se envolver em problemas, carregando malas e malas diplomáticas que não passam por revista. Depois, no carnaval do ano passado, com a possibilidade da decretação da prisão preventiva na boca povo e na mesa do ministro Alexandre de Moraes, por seus arroubos desafiadores, foi se meter com travesseiro e tudo na embaixada da Hungria, em Brasília. Agora, o filho deputado federal abandonou o mandato sem qualquer razão, com desculpas risíveis, e foi tramar com políticos norte-americanas, em território estrangeiro, possíveis saídas para livrar o pai da cadeia.
É preciso sempre recordar que Bolsonaro não está impedido de viajar. Ele só não pode sair do Brasil, por determinação judicial. Seu passaporte está apreendido, mas você pode se perguntar: e ir para países como os do Mercosul, em que basta a apresentação do RG para entrar? Não, Bolsonaro não pode ir para lá. Ele está sem passaporte e também recebeu uma ordem expressa para que em situação alguma saia do Brasil. O problema é que ele não recebeu uma tornozeleira eletrônica para monitoramento de cada passa seu, muito menos medidas cautelares mais restritivas que impediriam a fuga, como a prisão preventiva em estabelecimento penal ou prisão domiciliar. Na prática, o antigo ocupante do Palácio do Planalto circula por onde quiser em território nacional, no horário que bem entender e não deve satisfação a ninguém, uma situação que é um verdadeiro convite para tentar uma fuga.
Diante do crescente cenário de concretização dessa escapada, a Fórum ouviu duas fontes de Brasília com profundo conhecimento sobre as investigações do notório ato criminoso da tentativa de golpe, e com trânsito entre autoridades que trabalham em cima deste caso histórico. Um é servidor da Polícia Federal e o outro é do mundo político, com cargo de carreira na área diplomática, cuja função exige uma interface constante com a PF e servidores da Justiça.
O que mais assusta antes de tudo é o fato de que a Polícia Federal, por razões legais, não estaria fazendo nada para prevenir uma possível fuga. Nada não, mas quase nada. “Veja bem, vigiar, vigiar mesmo, 24 horas, não pode, isso seria algo ilegal e fora de todos os preceitos democráticos... Acaba que a gente espera da mídia, né, que noticia sobre ele diariamente, e vive atrás dele, então dentro do possível sabemos onde ele está... Sem falar que a gente acaba contando com o fato também de que a maior parte das fronteiras brasileiras, não em áreas remotas, está bem vigiada”, diz o servidor da PF ouvido pela reportagem.
Em seguida, o policial revela que não é exatamente uma carta branca que Jair Bolsonaro tem para sair por aí fazendo o que bem entender. Haveria um setor da corporação que o acompanha sem que necessariamente infrinja a lei ou viole os direitos do investigado.
“A PF, em situações assim, age sempre de forma muito sutil, ela não pode agir na ilegalidade, nem violando direitos de ninguém... Mas não dá pra negar que o pessoal da Contrainteligência tem os dados e vem monitorando isso de alguma forma, e eles, pelo que têm, corroboram de fato essa possibilidade de fuga... O que se sabe lá dentro [da Contrainteligência] é que, diante de tudo que existe no caso, vão condená-lo, e ele vai tentar fugir antes... Tem gente de olho”, acrescentou o agente da PF.
A reportagem da Fórum entrou em contato com a assessoria de imprensa da Polícia Federal para saber se o órgão está tomando algum tipo de medida para evitar a fuga de Jair Bolsonaro, assim como para confirmar a versão de que agentes do Serviço de Investigações de Contrainteligência (SICINT) estariam o monitorando. No entanto, até a publicação da matéria nossa redação ainda não havia recebido um posicionamento da corporação. O espaço segue aberto para a manifestação da PF.
Quem conta uma versão semelhante é uma fonte do mundo político de Brasília que está relacionada à diplomacia e aos altos escalões de segurança. Esse servidor garante que há uma conexão constante de autoridades da PF com setores do Itamaraty que lidam com as representações diplomáticas instaladas na capital federal. Muita coisa já foi apurada e haveria uma linha a ser seguida para simular os possíveis destinos de Bolsonaro.
“Claro que tudo está sendo feito dentro da lei, mas não tem como dizer que não tem gente de olho nele [no ex-presidente]... Tem uma gama de destinos possíveis que vêm sendo avaliados e os riscos são mensurados, afinal, ele [Bolsonaro] já tem um histórico e é uma pessoa bem previsível”, disse. O servidor completou ainda afirmando que todos que lidam de alguma forma com o caso sabem que “ele [Bolsonaro] só quer fugir, de qualquer jeito”.
Veja quais seriam as hipóteses mais ou menos prováveis para uma fuga:
Cenários muito prováveis
Embaixada de El Salvador – Nayib Bukele, o jovem ditador de extrema direita salvadorenho, é um sujeito megalomaníaco e chegado aos holofotes. Mandando com mãos de ferro numa republiqueta sem qualquer relevância na comunidade internacional, ele vive flertando com o clã Bolsonaro e tem aumentado as críticas e insultos ao governo brasileiro, sobretudo direcionadas ao presidente Lula. Bajulador de primeira hora de Donald Trump, a quem cedeu suas funestas prisões para que sejam encaminhados imigrantes ilegais deportados, o presidente de El Salvador adoraria ganhar protagonismo internacional dando abrigo ao golpista brasileiro, que de dentro da embaixada infernizaria o país e geraria um complexo entrave internacional.
Embaixada da Hungria – Bolsonaro já fugiu uma vez para a missão diplomática húngara no Brasil, durante o carnaval de 2024, quando sua prisão preventiva era iminente. O autocrata que comanda o país do Leste Europeu, Viktor Orbán, vive aos afagos com o ex-presidente brasileiro e certamente deu seu aval para que ele se instalasse em sua embaixada no ano passado. Apesar de um destino manjado, nada impede que Bolsonaro tente outra vez entrar lá e ficar.
Cenários prováveis, mas nem tanto
Embaixada da Argentina – Javier Milei é outro que adora holofotes. É também é um aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro. Os dois países têm uma extensa fronteira e chegar ao solo dos ‘hermanos’ seria relativamente simples. No entanto, o que pesa contra essa hipótese é que o argentino vem enfrentando momentos difíceis em seu governo, com acusações e escândalos que minam sua imagem de ‘outsider’, e este não seria o momento para contratar uma crise diplomática com a principal vizinha e mais amiga das nações, o Brasil.
Embaixada dos EUA – Bolsonaro adora falar de sua “amizade” com Donald Trump. Quando o presidente dos EUA venceu a eleição para seu segundo mandato, o brasileiro chegou a mandar um “I love you” para o líder da Casa Branca. Ainda que esteja num turbilhão de maluquices, Trump em geral é guiado por grande pragmatismo e é muito duvidável que ele queira uma grande crise diplomática com o Brasil, de repercussões mundiais, só para agradar um sujeito que ele considera apenas um conhecido de seu clube de extremistas.
Cenários improváveis
Embaixada da Itália – Ainda que governada pela primeira-ministra Giorgia Meloni, de extrema direita, a República Italiana é um integrante importante e central da União Europeia e mantém uma democracia liberal bastante sólida. Uma ação do tipo poderia gerar problemas para o governo na Justiça, ou com o Ministério Público. Pesa muito também o fato de que Meloni tem mantido uma relação cordial e amigável, dentro do possível, com Lula, sem falar no fato de que seus parceiros europeus, como a França, o Reino Unido e a Alemanha, que já estão atolados até o pescoço com os problemas envolvendo a Rússia, questionariam uma decisão de Roma nesse sentido, já que acolher Bolsonaro em sua representação diplomática seria um escândalo.
Embaixadas de nações árabes do Golfo – O chamego de Bolsonaro com líderes do Bahrein, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita durante o seu mandato é bem conhecido. Foi com ele, aliás, que o ex-presidente se meteu no maior de seus escândalos: o das joias multimilionárias “dadas” para o casal presidencial brasileiro, que seriam patrimônio do Estado, mas que o extremista mandou vender de forma ilegal no exterior para ficar com o dinheiro, ganhando ainda a pecha de muambeiro. De fato, nos anos de seu governo, essas nações se mostraram próximas, mas atualmente mantêm uma relação excelente com o Brasil governado por Lula, com total pragmatismo, e jamais se meteriam num imbróglio internacional, com reflexos nas relações econômicas, só para ajudar um golpista que se deu mal.
Embaixada de Israel – Nada indica que o governo de Benjamin Netanyahu, já cheio de problemas gravíssimos e em meia uma “guerra”, vá comprar uma briga internacional de grandes proporções para salvar a pele de Bolsonaro. Para além de fantoche dos EUA, o Estado judeu costuma apenas manter relações mais profundas com algumas outras nações europeias de peso e não é dado a se intrometer em questões internadas de países distantes. A exceção, claro, foram os recentes ataques do ministro da Defesa israelense, Israel Kratz, quando ainda ocupava o posto de chanceler, insultando o presidente Lula por conta de suas declarações clamando pelo fim do massacre de palestinos em Gaza. O embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine, até andou apoiando publicamente Bolsonaro num passado recente, mas nada indica que Telavive contratará essa dor de cabeça para ajudar o ex-presidente brasileiro.
Fuga ao estilo Carlos Ghosn
Todos devem lembrar do cinematográfico caso do ex-CEO da Renault-Nissan-Mitsubishi, o franco-brasileiro-libanês Carlos Ghosn. Preso no Japão em 2018, sob acusações confusas relacionadas à sua administração frente a essas montadoras, num caso de superexposição midiática mundo afora, ele conseguiu liberdade provisória em 2019 e então empreendeu uma fuga inacreditável do território japonês, entrando numa grande caixa de carregar instrumentos musicais e sendo colocado rapidamente, e de forma ilegal, dentro de um jato privado, que voou direto para Beirute, no Líbano. A hipótese de Bolsonaro entrar de forma discreta ou disfarçada numa aeronave privada com grande autonomia de voo, como é o caso de alguns jatos Gulfstream e Bombardier, por exemplo, zarpando para os EUA, é real e está no radar das autoridades.