RN PERDE 46 BANCOS EM 10 ANOS; QUASE 900 MIL NÃO TÊM ACESSO A AGÊNCIAS


O número de unidades bancárias no Rio Grande do Norte caiu de 208 em 2015 para 162 em 2025, o que representa uma redução de 22,11%, de acordo com um levantamento elaborado pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo. A falta de agências no RN afeta 899.858 potiguares, ou 27,4% da população total. São 138 cidades no estado sem atendimento bancário presencial. Apesar do alto número, a maior parte da população potiguar (2,4 milhões de pessoas) conta com serviços presenciais de bancos, uma vez que as agências em atividade se concentram em 38 municípios com maior contingente populacional. Em todo o País, a quantidade de unidades caiu 37% em uma década.


No período, Natal foi a cidade do RN que perdeu mais agências: de 82 em 2015, passou a 58 no ano passado, resultando em um fechamento de 24 unidades. Mossoró foi a segunda que mais perdeu, com quatro agências a menos no período de dez anos (eram 16 em 2015 e em 2025 eram 12). No mesmo recorte, 10 municípios, que em 2015 contavam com atendimento bancário presencial, ficaram sem o serviço porque contavam com apenas uma agência, cujas atividades foram encerradas ao longo da década. São eles: Ipanguaçu, Jardim de Piranhas, Santana do Matos, Governador Dix-Sept Rosado, São José do Campestre, Afonso Bezerra, Acari, Florânia, Martins e Pedro Avelino. Somada, a população que deixou de ter acesso a atendimento presencial no período é de 109,6 mil habitantes.

Alexandre Cândido, coordenador geral do Sindicato dos Bancários do Rio Grande do Norte, explica que as causas para o fechamento das agências no estado estão relacionadas essencialmente a fatores como redução de custos e informatização ou mecanização dos bancos, o que teria se acelerado com a pandemia de covid-19. O fechamento das unidades, segundo ele, provoca impactos diversos, como a precarização dos serviços e a falta de assistência a parte da população.

“A gente pode citar como exemplo de desassistência o caso de São Paulo do Potengi [no Agreste do RN]. Por lá, o Bradesco encerrou as atividades em 2024 e os cerca de 3 mil clientes da cidade e de municípios vizinhos passaram a ser atendidos em Macaíba, na Caixa Econômica. Isso provocou muitos transtornos, porque foi um período, para a Caixa, de renovação de cartão de clientes e pagamento de programas sociais como o Pé de Meia. Na época, chegou a ser registrado por volta de 150 atendimentos por dia na agência”, relembra Cândido.

“A Prefeitura, junto com o banco, improvisou uma sala para atendimentos, mas ainda assim não era possível dar conta da demanda. E, claro, houve muitos transtornos para os clientes de São Paulo do Potengi e entorno, os quais passaram a andar aproximadamente 40 quilômetros, com despesas com lotação, para chegar a uma agência”, descreve o coordenador do Sindicato dos Bancários do RN.

Ele explica também que, em cidades de menor porte, a saída de uma agência bancária provoca reflexos na economia local, uma vez que os clientes costumam deixar parte do dinheiro sacado nos municípios onde realizam as operações de retirada. “Outro ponto é que o dinheiro físico em circulação naquela área não encontra um banco para absorvê-lo e acaba indo para as agências de loteria e correspondentes bancários. A repercussão, em situações como esta, é sempre muito grande”, fala Alexandre Cândido.

Menos empregos no setor bancário

Com o fechamento das agências, um dos efeitos que mais preocupam o setor é a perda de vagas de emprego e a precarização das condições de trabalho nas unidades que se mantêm em funcionamento. Os dados do Sindicato dos Bancários de São Paulo mostram que o segmento fechou 2025 com saldo negativo de postos em todos os estados. No Rio Grande do Norte, foram 60 vagas a menos. Alexandre Cândido, que coordena o Sindicato dos Bancários do RN, disse que, além da retirada das agências físicas, as instituições bancárias têm reduzido os quadro de colaboradores nas unidades onde o atendimento presencial é mantido.

“O que temos hoje é o seguinte: as metas crescem e a quantidade de trabalhador diminui. O impacto disso é o adoecimento mental”, fala. A disparada de golpes virtuais também é um efeito da migração das agências físicas para os serviços digitais, na avaliação de Cândido. “Percebe-se que nos últimos anos não se ouve mais falar de assaltos a bancos. Essas ações foram substituídas, basicamente, pelo phishing, tipo de roubo virtual em que são usados robôs e toda uma parafernália para ‘pescar’ dinheiro. No primeiro semestre do ano passado, os crimes digitais aumentaram 300% no Brasil em comparação com igual período do ano anterior”, aponta Cândido.

Segundo ele, o processo de digitalização dos bancos, um dos fatores responsáveis pelo encolhimento no número de agências físicas em todo o País, se intensificou com a chegada da pandemia em 2020, porque os usuários foram “forçados” a utilizar os serviços disponibilizados apenas nos aplicativos das instituições em razão do isolamento social. De acordo com o levantamento do Sindicato dos Bancários de São Paulo, em 2019, um ano antes da pandemia, o número de agências bancárias no RN havia reduzido 8,6% desde 2015, saindo de 208 para 190 (18 unidades fechadas no período).

Entre 2019 e 2025, a redução foi de 14,7%, com 28 agências encerradas. Esse processo, de acordo com Cândido, teria se acelerado com a chamada segunda fase de mecanização dos bancos, que alcançou sucesso definitivo com a chegada da crise sanitária. “A primeira mecanização ocorreu com os caixas de autoatendimento, instalados para garantir mais comodidade e fazer com que o cliente perca menos tempo na agência. Depois, veio o lançamento dos aplicativos, na segunda fase de mecanização, sem muito sucesso de início”, descreve o coordenador do sindicato.

Apenas nos últimos anos, com o avanço dos serviços de internet e melhorias na segurança dos programas, essa mecanização começou a andar e seguiu a passos largos com a pandemia, quando o cliente foi forçado a aderir a um sistema digitalizado para ter acesso aos serviços bancários. Hoje, essa adesão ocorre também por causa do avanço facilitado ao ambiente digital, uma vez que cerca de 70% dos brasileiros usam internet fixa, em casa ou no trabalho, principalmente”, explica Alexandre.

Procurada para comentar o assunto, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apontou que o encerramento das atividades bancárias presenciais é próprio da política de negócios de cada banco e que os canais digitais são uma alternativa prática e segura aos clientes, oferecendo praticamente a totalidade das transações financeiras do sistema bancário.

“Os bancos estão se adequando à nova realidade do mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento ganha espaço em detrimento dos canais físicos e presenciais, refletindo o novo perfil do consumidor, que encontra conveniência, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos”, respondeu a Febraban.

País tem 6,9 milhões de pessoas sem agências

Conforme o levantamento do Sindicato dos Bancários de São Paulo, 638 municípios em todo o País ficaram sem qualquer agência bancária desde 2015, deixando cerca de 6,9 milhões de pessoas desassistidas. Em dez anos, o número de unidades presenciais caiu de 22,7 mil para 14,23 mil, redução de 37% Atualmente, 2.649 cidades brasileiras, o equivalente a 48% do total, não contam com atendimento presencial.

Em termos populacionais, isso afeta 19,7 milhões de brasileiros, ou 9% da população nacional. O processo se intensificou nos últimos anos, impulsionado pela busca por lucros cada vez maiores no setor financeiro, de acordo com Alexandre Cândido, presidente do Sindicato dos bancários no RN. Ao todo, quase 6 mil agências tradicionais foram fechadas, enquanto os bancos passaram a investir em atendimento remoto e em unidades voltadas a públicos de maior poder aquisitivo.