MISOGINIA NA INTERNET AMPLIA VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES
Discursos misóginos migraram da vida real para as redes sociais, onde grupos organizados de homens ressentidos com mulheres, como incels e redpills, passaram a atuar. Segundo as sociólogas Bruna Camilo e Tica Moreno, a misoginia digital tem reflexos no mundo real e contribui para o aumento da violência contra a mulher, potencializada por algoritmos e desinformação.
Adolescentes são mais expostos e atraídos por grupos misóginos
As pesquisadoras apontam que jovens são expostos a conteúdos misóginos nas plataformas digitais, muitas vezes sem procurá-los. Por meio de jogos, por exemplo, adolescentes tornam-se um público vulnerável ao recrutamento para a machosfera. “Os jovens têm uma especificidade, porque [passam por] um momento de socialização. O menino ‘precisa’ cumprir alguns requisitos para ser homem: precisa ser o mais popular, socializar e namorar. Quando o menino não consegue cumprir essa masculinidade hegemônica, que é esse ‘ser macho’, ele começa a se organizar de maneira um pouco ressentida”, afirma Camilo.
Uma das formas de encontrar pertencimento é nos jogos online. “É sempre muito perigoso, porque por trás desses jogos tem um adulto misógino que está cooptando e conseguindo envolver esse menino para que ele consiga uma resposta para aquele ressentimento”, acrescenta. Segundo ela, a cooptação também ocorre por meio de memes que estimulam uma masculinidade tóxica e naturalizam a violência.
Para proteger os meninos, Camilo defende compreender o papel das plataformas digitais. “É importante a gente compreender, sobre as big techs: por que elas estão entregando misoginia para os nossos jovens? Por que a misoginia é tão lucrativa?” Já Tica Moreno afirma que é preciso pensar a juventude de forma ampla e fortalecer espaços de convivência que ampliem as possibilidades de socialização e reduzam a vulnerabilidade a esses grupos.
Para as especialistas, o enfrentamento à misoginia digital e à violência contra a mulher exige políticas públicas de combate aos discursos de ódio e responsabilização das plataformas. “A misoginia tem que ser combatida pelo Estado. Entretanto, é importante dizer também que a criminalização não pode ser apenas discutida sobre prender os homens que cometem o crime da misoginia”, afirma Camilo.
Ela destaca que a Lei Maria da Penha é uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção às mulheres, enquanto a Lei do Feminicídio foi importante por nomear a morte de mulheres. “A gente precisa [também] pensar sobre educação e em outra forma de romper essa estrutura patriarcal e violenta que esses homens têm se alimentado”.
Além da educação, Camilo defende punições às big techs, que permitem a circulação desses conteúdos e utilizam algoritmos que favorecem a entrega de material misógino aos jovens. Segundo Moreno, se a misoginia foi atualizada pelas redes sociais, o enfrentamento também precisa acompanhar essa transformação. “Precisamos que as regulações deem conta dessa base nova tecnológica e de novos instrumentos normativos”, afirma. “Defender a vida das mulheres em todas as suas dimensões é também defender a democracia”.
As pesquisadoras estiveram no Rio Grande do Norte nesta semana para participar do seminário Feminismo Urgente: como se organizam big techs, red pill e machosfera na exploração e ódio às mulheres. O evento ocorreu em Natal, na quarta-feira (6), e em Mossoró, na quinta-feira (7).
SEMJIDH acompanha avanço de discursos misóginos
O Rio Grande do Norte registrou a segunda maior alta de feminicídios do país no primeiro trimestre deste ano, com 10 casos e crescimento de 100%, mesmo percentual observado em Sergipe e Amazonas. O Amapá liderou o aumento, com 250%, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Na avaliação da Secretaria de Estado das Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEMJIDH), o crescimento está relacionado à persistência da violência doméstica e familiar, ao agravamento de conflitos marcados pelo controle e misoginia e à dificuldade de muitas mulheres romperem ciclos de violência. “Também é importante considerar que houve ampliação do acesso às denúncias e maior reconhecimento e tipificação dos crimes como feminicídio, o que contribui para tornar os dados mais visíveis”, afirma Josiane Bezerra.
Segundo Bezerra, a SEMJIDH acompanha o avanço de discursos misóginos no ambiente digital. “A misoginia digital é uma extensão das desigualdades estruturais de gênero historicamente presentes na sociedade brasileira. No ambiente virtual, essas violências se manifestam por meio de assédio, ameaças, perseguições, exposição vexatória, desinformação, discurso de ódio e incentivo à violência contra mulheres”, destaca. Ela destaca que o Governo do RN tem investido no fortalecimento da rede de proteção às mulheres.
Esses grupos integram a chamada “machosfera”, ambiente virtual em que homens disseminam ódio contra mulheres. “A violência contra as mulheres já existe secularmente. Mas, com o advento da internet, a gente tem percebido uma organização maior desses homens e desses grupos”, afirma Camilo.
Os incels são homens que se definem como celibatários involuntários, em sua maioria jovens. Já o termo “red pill” faz referência ao filme Matrix. “O personagem tinha que escolher entre tomar a pílula azul, para se manter na ignorância, ou tomar a pílula vermelha [red pill, em inglês], para descobrir a verdade. Os grupos masculinistas utilizam dessa cena para falar que estar redpill é conhecer a verdade, que seria que as mulheres são o mal da sociedade”, explica.
Segundo a pesquisadora, a organização desses grupos existe há décadas, mas ganhou força com a internet. “Na década de 70 a internet estava longe de ser popularizada, mas esses homens já se organizavam. Eles já estavam frustrados e ressentidos com o avanço dos direitos das mulheres”, afirma Camilo. Segundo diz, o movimento redpill cresceu com a venda de cursos e conteúdos de coaches, monetizando a misoginia.
Ela afirma que não há um mapeamento geográfico preciso desses grupos, já que atuam de forma articulada em rede. As comunidades utilizam plataformas digitais para disseminar discursos antifeministas e defender uma masculinidade tóxica.
No Brasil, segundo a pesquisadora, a organização mistura referências nacionais e internacionais. “É muito mais fácil reconhecer o incel, por exemplo, do que os outros, porque o Brasil bebe muito da fonte desses grupos dos Estados Unidos. O redpill se destaca porque tem essa característica de estar nas plataformas, ser coach, vender curso e subir montanha.”
A violência disseminada em redes sociais, fóruns e blogs da internet tem potencializado a violência contra a mulher no mundo real, que segue em crescimento. Desde a entrada em vigor da Lei do Feminicídio, em 2015, o número de vítimas aumenta a cada ano. Os dados do primeiro trimestre de 2026 registraram recorde de feminicídios na série histórica iniciada em 2016, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Foram 399 vítimas no país — 10 delas no Rio Grande do Norte, que dobrou o número de casos no período. Em média, quatro brasileiras foram mortas por dia em contextos de violência doméstica ou motivados por discriminação de gênero.
“O mundo virtual não está separado do mundo físico. Temos que fazer com que esses dois espaços dialoguem para entender essa lógica e combater essa misoginia nas redes, que agora está muito mais assustadora. Infelizmente, as mulheres morrem por conta de todo esse ódio”, afirma Camilo.
Segundo a pesquisadora, grupos masculinos nas redes sociais disseminam a ideia de que as mulheres são um problema, alimentando o ciclo da violência. “Muitos homens que não [sabem] por que existe aquele ressentimento, por que eles estão mal com a sociedade, conseguem encontrar nesses lugares uma justificativa. E aquilo reflete diretamente na sua agressividade”, explica.
Para Tica Moreno, socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres, é necessário compreender como o ambiente digital se conecta à vida real e às estruturas patriarcais da sociedade. “A misoginia não é simplesmente um conjunto simbólico de valores e de cultura dissociado dessa base material. Ela serve para manter as mulheres num lugar de opressão”.
Camilo acrescenta que “o homem se alimenta do discurso nas redes sociais, recebe notícia falsa e desinformação e materializa aquele desejo de controlar as mulheres ao seu redor através da força.” Para combater a violência, Moreno defende uma contraofensiva baseada no feminismo, em políticas públicas e na responsabilização das big techs pela circulação de conteúdos misóginos.
Os incels são homens que se definem como celibatários involuntários, em sua maioria jovens. Já o termo “red pill” faz referência ao filme Matrix. “O personagem tinha que escolher entre tomar a pílula azul, para se manter na ignorância, ou tomar a pílula vermelha [red pill, em inglês], para descobrir a verdade. Os grupos masculinistas utilizam dessa cena para falar que estar redpill é conhecer a verdade, que seria que as mulheres são o mal da sociedade”, explica.
Segundo a pesquisadora, a organização desses grupos existe há décadas, mas ganhou força com a internet. “Na década de 70 a internet estava longe de ser popularizada, mas esses homens já se organizavam. Eles já estavam frustrados e ressentidos com o avanço dos direitos das mulheres”, afirma Camilo. Segundo diz, o movimento redpill cresceu com a venda de cursos e conteúdos de coaches, monetizando a misoginia.
Ela afirma que não há um mapeamento geográfico preciso desses grupos, já que atuam de forma articulada em rede. As comunidades utilizam plataformas digitais para disseminar discursos antifeministas e defender uma masculinidade tóxica.
No Brasil, segundo a pesquisadora, a organização mistura referências nacionais e internacionais. “É muito mais fácil reconhecer o incel, por exemplo, do que os outros, porque o Brasil bebe muito da fonte desses grupos dos Estados Unidos. O redpill se destaca porque tem essa característica de estar nas plataformas, ser coach, vender curso e subir montanha.”
A violência disseminada em redes sociais, fóruns e blogs da internet tem potencializado a violência contra a mulher no mundo real, que segue em crescimento. Desde a entrada em vigor da Lei do Feminicídio, em 2015, o número de vítimas aumenta a cada ano. Os dados do primeiro trimestre de 2026 registraram recorde de feminicídios na série histórica iniciada em 2016, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Foram 399 vítimas no país — 10 delas no Rio Grande do Norte, que dobrou o número de casos no período. Em média, quatro brasileiras foram mortas por dia em contextos de violência doméstica ou motivados por discriminação de gênero.
“O mundo virtual não está separado do mundo físico. Temos que fazer com que esses dois espaços dialoguem para entender essa lógica e combater essa misoginia nas redes, que agora está muito mais assustadora. Infelizmente, as mulheres morrem por conta de todo esse ódio”, afirma Camilo.
Segundo a pesquisadora, grupos masculinos nas redes sociais disseminam a ideia de que as mulheres são um problema, alimentando o ciclo da violência. “Muitos homens que não [sabem] por que existe aquele ressentimento, por que eles estão mal com a sociedade, conseguem encontrar nesses lugares uma justificativa. E aquilo reflete diretamente na sua agressividade”, explica.
Para Tica Moreno, socióloga e militante da Marcha Mundial das Mulheres, é necessário compreender como o ambiente digital se conecta à vida real e às estruturas patriarcais da sociedade. “A misoginia não é simplesmente um conjunto simbólico de valores e de cultura dissociado dessa base material. Ela serve para manter as mulheres num lugar de opressão”.
Camilo acrescenta que “o homem se alimenta do discurso nas redes sociais, recebe notícia falsa e desinformação e materializa aquele desejo de controlar as mulheres ao seu redor através da força.” Para combater a violência, Moreno defende uma contraofensiva baseada no feminismo, em políticas públicas e na responsabilização das big techs pela circulação de conteúdos misóginos.
Adolescentes são mais expostos e atraídos por grupos misóginos
As pesquisadoras apontam que jovens são expostos a conteúdos misóginos nas plataformas digitais, muitas vezes sem procurá-los. Por meio de jogos, por exemplo, adolescentes tornam-se um público vulnerável ao recrutamento para a machosfera. “Os jovens têm uma especificidade, porque [passam por] um momento de socialização. O menino ‘precisa’ cumprir alguns requisitos para ser homem: precisa ser o mais popular, socializar e namorar. Quando o menino não consegue cumprir essa masculinidade hegemônica, que é esse ‘ser macho’, ele começa a se organizar de maneira um pouco ressentida”, afirma Camilo.
Uma das formas de encontrar pertencimento é nos jogos online. “É sempre muito perigoso, porque por trás desses jogos tem um adulto misógino que está cooptando e conseguindo envolver esse menino para que ele consiga uma resposta para aquele ressentimento”, acrescenta. Segundo ela, a cooptação também ocorre por meio de memes que estimulam uma masculinidade tóxica e naturalizam a violência.
Para proteger os meninos, Camilo defende compreender o papel das plataformas digitais. “É importante a gente compreender, sobre as big techs: por que elas estão entregando misoginia para os nossos jovens? Por que a misoginia é tão lucrativa?” Já Tica Moreno afirma que é preciso pensar a juventude de forma ampla e fortalecer espaços de convivência que ampliem as possibilidades de socialização e reduzam a vulnerabilidade a esses grupos.
Para as especialistas, o enfrentamento à misoginia digital e à violência contra a mulher exige políticas públicas de combate aos discursos de ódio e responsabilização das plataformas. “A misoginia tem que ser combatida pelo Estado. Entretanto, é importante dizer também que a criminalização não pode ser apenas discutida sobre prender os homens que cometem o crime da misoginia”, afirma Camilo.
Ela destaca que a Lei Maria da Penha é uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção às mulheres, enquanto a Lei do Feminicídio foi importante por nomear a morte de mulheres. “A gente precisa [também] pensar sobre educação e em outra forma de romper essa estrutura patriarcal e violenta que esses homens têm se alimentado”.
Além da educação, Camilo defende punições às big techs, que permitem a circulação desses conteúdos e utilizam algoritmos que favorecem a entrega de material misógino aos jovens. Segundo Moreno, se a misoginia foi atualizada pelas redes sociais, o enfrentamento também precisa acompanhar essa transformação. “Precisamos que as regulações deem conta dessa base nova tecnológica e de novos instrumentos normativos”, afirma. “Defender a vida das mulheres em todas as suas dimensões é também defender a democracia”.
As pesquisadoras estiveram no Rio Grande do Norte nesta semana para participar do seminário Feminismo Urgente: como se organizam big techs, red pill e machosfera na exploração e ódio às mulheres. O evento ocorreu em Natal, na quarta-feira (6), e em Mossoró, na quinta-feira (7).
SEMJIDH acompanha avanço de discursos misóginos
O Rio Grande do Norte registrou a segunda maior alta de feminicídios do país no primeiro trimestre deste ano, com 10 casos e crescimento de 100%, mesmo percentual observado em Sergipe e Amazonas. O Amapá liderou o aumento, com 250%, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Na avaliação da Secretaria de Estado das Mulheres, Juventude, Igualdade Racial e Direitos Humanos (SEMJIDH), o crescimento está relacionado à persistência da violência doméstica e familiar, ao agravamento de conflitos marcados pelo controle e misoginia e à dificuldade de muitas mulheres romperem ciclos de violência. “Também é importante considerar que houve ampliação do acesso às denúncias e maior reconhecimento e tipificação dos crimes como feminicídio, o que contribui para tornar os dados mais visíveis”, afirma Josiane Bezerra.
Segundo Bezerra, a SEMJIDH acompanha o avanço de discursos misóginos no ambiente digital. “A misoginia digital é uma extensão das desigualdades estruturais de gênero historicamente presentes na sociedade brasileira. No ambiente virtual, essas violências se manifestam por meio de assédio, ameaças, perseguições, exposição vexatória, desinformação, discurso de ódio e incentivo à violência contra mulheres”, destaca. Ela destaca que o Governo do RN tem investido no fortalecimento da rede de proteção às mulheres.
