CORTE EM BENEFÍCIOS SOCIAIS PODE REDUZIR RENDA DO INTERIOR DO RN EM 18,5%



A renda agregada dos municípios do Rio Grande do Norte fora de Natal e de sua região metropolitana poderia ficar 18,5% abaixo da trajetória de referência em 2029 caso aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família seguissem regras de reajuste semelhantes às adotadas durante o governo Jair Bolsonaro (PL). A estimativa é de um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), publicado em 18 de outubro.


O levantamento também aponta que os benefícios sociais têm peso decisivo na renda das famílias potiguares mais pobres. Nos municípios do interior do estado, aposentadorias, pensões, BPC e Bolsa Família representam, juntos, cerca de 46% da renda das famílias de baixa renda. O resultado ajuda a dimensionar o impacto que mudanças nas regras de atualização desses pagamentos poderiam ter não apenas sobre os beneficiários, mas também sobre o comércio, os serviços e a atividade econômica local.

A pesquisa foi divulgada em meio à campanha presidencial de 2026, marcada pelo debate sobre o plano de ajuste fiscal associado à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que prevê uma economia de até R$ 250 bilhões. Entre as medidas em avaliação estão alterações nas regras de reajuste de benefícios previdenciários e assistenciais e mudanças nos pisos constitucionais de financiamento da saúde e da educação.

Embora o estudo do Made não avalie diretamente o plano de Flávio, suas simulações ajudam a compreender as possíveis consequências econômicas de uma política que reduza o ritmo de crescimento real dos benefícios sociais, especialmente em estados do Norte e do Nordeste.
 
Benefícios sociais sustentam quase metade da renda dos mais pobres

A pesquisa utiliza microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para analisar a participação das transferências sociais na renda das famílias e simular cenários alternativos de reajuste entre 2027 e 2029.

No Rio Grande do Norte, o peso dos pagamentos é ainda mais significativo entre as famílias de baixa renda do interior. Segundo o estudo, os quatro tipos de benefícios analisados — aposentadorias, pensões públicas, BPC e Bolsa Família — respondem por aproximadamente 46% da renda desse grupo, percentual semelhante ao observado em Alagoas e Maranhão.

A dependência dessas transferências não se limita às pessoas que recebem diretamente os pagamentos. O dinheiro movimenta a economia dos municípios por meio do consumo de alimentos, medicamentos, roupas, serviços e outros produtos. Quando os benefícios crescem menos, as famílias têm menor capacidade de consumo, o que pode reduzir o faturamento dos estabelecimentos comerciais e a renda de trabalhadores e empresários.

Os pesquisadores incorporaram esse efeito indireto às projeções econômicas. Para isso, utilizaram um multiplicador de 1,81, que considera tanto o impacto inicial dos benefícios sobre a renda quanto os efeitos posteriores sobre a atividade econômica.
Regra de reajuste do governo Bolsonaro teria impacto maior no RN

O estudo compara a trajetória observada dos benefícios durante o terceiro governo Lula, entre 2022 e 2025, com três cenários alternativos: congelamento nominal dos pagamentos, aplicação de taxas de crescimento semelhantes às registradas durante o governo Jair Bolsonaro e aplicação dessas taxas considerando também os efeitos excepcionais do Auxílio Emergencial e do Auxílio Brasil.

No cenário que reproduz a regra de reajuste do governo Bolsonaro, a renda agregada dos municípios potiguares fora da capital e da região metropolitana ficaria 18,5% abaixo da trajetória de referência em 2029. O resultado coloca o Rio Grande do Norte entre os estados com maiores perdas estimadas, ao lado do Amapá, onde a diferença seria de 18,2%, e do Piauí, com 17,2%.

A trajetória de referência considera a continuidade do crescimento real dos benefícios observado entre 2022 e 2025. Portanto, os percentuais não significam necessariamente que a renda total dos municípios cairia nominalmente 18,5% em relação ao ano anterior. Eles indicam uma diferença em relação ao nível que poderia ser alcançado caso fosse mantido o ritmo de crescimento dos benefícios observado no período de referência.

No conjunto dos municípios brasileiros fora das capitais e regiões metropolitanas, a renda agregada em 2029 ficaria 8,4% abaixo dessa trajetória no cenário baseado nas regras do governo Bolsonaro. No cenário de congelamento dos valores nominais, a diferença chegaria a 10,8%.

O Nordeste concentra os efeitos mais intensos da desaceleração dos benefícios. Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque a renda dessas localidades tem maior participação de transferências sociais e porque a redução dos pagamentos também afeta o consumo e a atividade econômica dos municípios.
 
Mudanças também poderiam ampliar a pobreza

A pesquisa também simula como regras diferentes de reajuste teriam afetado a pobreza em 2025. Nesse exercício, os pesquisadores mantiveram as demais fontes de renda e alteraram os valores dos benefícios recebidos pelas famílias, comparando os resultados com os dados observados naquele ano.

No cenário que reproduz a regra do governo Bolsonaro, a taxa de pobreza nos municípios do Rio Grande do Norte fora da capital e da região metropolitana seria 2,9 pontos percentuais maior. Isso corresponderia a aproximadamente 55 mil pessoas a mais abaixo da linha de pobreza.

A simulação considera a pobreza como uma condição de renda insuficiente segundo a linha internacional adotada no estudo, ajustada para reais de 2025. O resultado não representa uma contagem de pessoas que efetivamente entraram na pobreza, mas uma estimativa contrafactual do que poderia ter ocorrido caso os benefícios tivessem seguido outra trajetória.

No cenário de congelamento dos valores nominais, os pesquisadores estimaram que 2,7 milhões de pessoas a mais estariam abaixo da linha de pobreza nos municípios brasileiros analisados. O número reforça a importância da atualização dos benefícios para preservar o poder de compra das famílias mais vulneráveis.

Os autores ressaltam, contudo, que os resultados dependem das hipóteses adotadas e não devem ser interpretados como previsões. O exercício procura dimensionar os efeitos possíveis de diferentes regras de reajuste, mantendo constantes outros fatores econômicos.
 
Debate eleitoral envolve o futuro da proteção social

A pesquisa acrescenta uma dimensão econômica ao debate eleitoral sobre o ajuste fiscal. No Rio Grande do Norte, onde os benefícios sociais representam parcela expressiva da renda das famílias de baixa renda no interior, mudanças na atualização dos pagamentos podem ter consequências que ultrapassam o orçamento doméstico dos beneficiários.

A discussão não se restringe ao valor recebido individualmente. Quando aposentadorias, pensões, BPC e Bolsa Família perdem ritmo de crescimento real, a redução do consumo pode repercutir sobre pequenos negócios, trabalhadores e prestadores de serviços que dependem da circulação de dinheiro nas cidades.

O estudo não analisa especificamente o plano econômico de Flávio Bolsonaro nem estima quantos potiguares seriam afetados por medidas anunciadas durante a campanha. Seus resultados, porém, mostram que a escolha das regras de reajuste dos benefícios sociais pode produzir efeitos relevantes sobre a renda, a pobreza e a atividade econômica do interior.
 
Coordenadora econômica de Flávio propõe regra de transição no Bolsa Família

A coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), Daniella Marques, afirmou na segunda-feira (19) que um eventual governo do senador pretende estabelecer uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que consigam emprego com carteira assinada ou abram um negócio. A proposta, segundo ela, busca estimular a entrada no mercado de trabalho sem que as famílias percam imediatamente a proteção social.

“Quem está no Bolsa Família vai ter regra de transição, como teve na época do presidente Bolsonaro, de dois anos, para que possa abrir seu negócio ou aceitar emprego de carteira assinada”, declarou Daniella em entrevista à CBN Bahia. Ela também afirmou que haveria retorno automático ao programa caso a tentativa de obter renda própria não desse certo. A coordenadora defendeu que os beneficiários não fiquem “presos para sempre” ao auxílio.
 
Governo Lula reajustou Bolsa Família em 15%

O governo Lula (PT) reajustou em 15,04% os valores do Bolsa Família, com os novos pagamentos iniciados em outubro. A correção foi oficializada pelo Decreto nº 13.120, de 17 de setembro, e considera a inflação acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026. Segundo o governo federal, o objetivo é preservar o poder de compra das famílias beneficiárias diante da alta dos preços.

Com a atualização, o valor mínimo garantido por família passou de R$ 600 para R$ 691. O benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777. A mudança também alcançou as parcelas adicionais: o Benefício de Renda de Cidadania, pago por integrante da família, passou de R$ 142 para R$ 164; o Benefício Primeira Infância, destinado a crianças de até sete anos incompletos, aumentou de R$ 150 para R$ 173; e o Benefício Variável Familiar, voltado a gestantes, nutrizes e crianças e adolescentes de 7 a 18 anos incompletos, passou de R$ 50 para R$ 58.

Esta foi a primeira correção dos valores pela inflação desde a retomada do atual modelo do Bolsa Família, em 2023. A legislação do programa permite a atualização dos benefícios e prevê que os valores podem ser corrigidos em intervalos de até 24 meses, sem redução. O reajuste foi calculado para recompor a inflação acumulada no período.