CÂNCER LIDERA CAUSAS DE MORTE EM 20 MUNICÍPIOS DO RN
O câncer foi a principal causa de morte em 20 cidades do Rio Grande do Norte em 2023, segundo um estudo do Observatório de Oncologia divulgado no ano passado. Em todo o Brasil, o número de municípios chegou a 670.
O estudo se baseou em dados secundários obtidos do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, abrangendo o período de 1998 a 2023. As análises consideraram os óbitos segundo o local de residência e foram integradas às informações populacionais provenientes do Censo de 2022 do IBGE. Para profissionais de saúde ouvidas pela Agência SAIBA MAIS, os dados estão relacionados ao envelhecimento da população, mas também a outros fatores.
“Quanto mais a população vive, maior a exposição acumulada a fatores de risco e maior a chance de desenvolver a doença. Some-se a isso a menor cobertura de rastreamento e diagnóstico precoce nesses municípios, o que faz com que muitos casos só sejam identificados em estágio avançado, quando o tratamento é mais complexo e a mortalidade, maior. Também não podemos ignorar que causas de morte mais ‘controláveis’ no passado, como doenças infecciosas e mortalidade materno-infantil, vêm caindo graças a avanços da saúde pública, o que naturalmente faz o câncer, uma doença crônica ligada ao envelhecimento e a hábitos de vida, ocupar mais espaço no ranking de causas de óbito”, explica Karla Emerenciano, oncologista clínica e diretora-geral executiva da Liga Contra o Câncer.
Já Rafaela Araújo, subcoordenadora de Epidemiologia da Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap), fatores como hábitos de vida (má alimentação, baixo consumo de água, alta exposição a radiação solar sem proteção, exposição a fatores de risco exógenos, tabagismo, álcool, etc), associados às desigualdades sociais, também contribuem para o cenário.
No Rio Grande do Norte, o município que apresenta o maior percentual de óbitos por câncer comparado às outras causas é Galinhos, com 45%. Rafael Godeiro (36%), Tenente Laurentino Cruz (35%), Janduís e Japi (31% cada) vêm na sequência.
No ano passado, o câncer já havia aparecido como a segunda maior causa de morte no RN, de acordo com o Boletim Epidemiológico do Câncer 2025, divulgado pela Sesap em outubro.
Entre 2020 e 2024 foram registrados 57.660 novos casos de câncer, sendo 44% em homens (25.102 casos) e 56% em mulheres (32.558 casos). Enquanto em 2020 a taxa era de 250 casos por 100 mil habitantes entre homens, em 2024 esse índice subiu para 375/100 mil. Já entre as mulheres a média que em 2020 era de 301 por 100 mil em 2020 subiu para 449/100 mil em 2024.
Cidades pequenas são maiores afetadas
Todos os 20 municípios potiguares presentes no estudo são pequenos, locais onde geralmente a estrutura de atendimento oncológico não é tão avançada. Segundo Karla Emerenciano, a distância até um centro de referência oncológico é um dos maiores obstáculos ao diagnóstico precoce e à adesão ao tratamento.
“É exatamente por isso que a Liga tem investido, há anos, em um trabalho de interiorização, unidades avançadas e convênios firmados diretamente com municípios do interior, para aproximar exames, diagnóstico e o início do tratamento da realidade dessas populações. Mas ainda há um caminho grande pela frente: municípios pequenos frequentemente carecem de exames de imagem, especialistas e até de profissionais capacitados para reconhecer sinais de alerta na atenção primária, e isso atrasa o encaminhamento”, aponta.
De acordo com Rafaela Araújo, da Sesap, apesar de haver um quantitativo considerável nas taxas de mortalidade nesses municípios, ainda há também uma subnotificação de casos de câncer nessas localidades.
“Ademais, a dificuldade de acesso aos serviços especializados em oncologia, aos processos de rastreamento e diagnóstico precoces também corroboram os altos índices negativos de neoplasias nos respectivos contextos”, diz.
Pulmão, mama e próstata lideram as causas
No período analisado pelo Observatório da Oncologia, os brônquios e pulmões foram os responsáveis pelo maior número de mortes de câncer no Rio Grande do Norte, com 474 mortes. Em seguida aparecem o câncer de mama, com 349 óbitos, e próstata, com 283 mortes.
“Tal evidência vai ao encontro do cenário global para com as altas taxas de incidência, prevalência e mortalidade de câncer. A ciência indica que para além do tabagismo como principal fator de risco, há a exposição prolongada a agentes químicos tóxicos, fumaças industriais (olarias, por exemplo), gases de metais pesados e/ou de agrotóxicos, como possíveis causas desse tipo de câncer, uma vez que geram inflamação e danos ao DNA que podem, por conseguinte, desenvolver a neoplasia”, diz a subcoordenadora de Epidemiologia da Sesap.
Para Emerenciano, diretora-geral executiva da Liga, o câncer de pulmão reúne uma combinação particularmente grave de fatores. O principal é o tabagismo, que segue sendo o maior fator de risco isolado. Ela também diz que o efeito do cigarro no corpo é cumulativo e leva décadas para aparecer nas estatísticas.
“E mesmo com a queda do tabagismo nos últimos anos, ainda estamos ‘pagando a conta’ de décadas anteriores”, explica.
Outros fatores, diz a oncologista, são a exposição ocupacional e ambiental a poluentes, e o fato de que os sintomas iniciais são inespecíficos, como tosse, cansaço e outros, que facilmente se confundem com outras condições.
“Diferente do câncer de mama ou de colo do útero, que contam com programas de rastreamento populacional bem estabelecidos, o câncer de pulmão ainda não tem uma estratégia de rastreio amplamente disseminada no país, o que faz com que a maioria dos casos seja diagnosticada já em estágio avançado”, aponta
Envelhecimento
Os números indicam que a maior parte das vítimas tem acima de 60 anos — a idade é um dos fatores de risco mais consistentes para o câncer.
“Ao longo da vida, nossas células acumulam mutações genéticas, é um processo natural do envelhecimento, e o sistema imunológico, com o tempo, também perde eficiência em identificar e eliminar células anômalas antes que se tornem um tumor. Além disso, quanto mais anos de vida, maior o tempo de exposição acumulada a fatores de risco como tabaco, álcool, má alimentação e poluição. Com a população do Rio Grande do Norte, como a do Brasil, envelhecendo, é esperado que a incidência de câncer continue crescendo nos próximos anos, o que reforça a importância de investir em prevenção e diagnóstico precoce desde já”, destaca Karla Emerenciano.
Municípios do RN com câncer como principal causa de morte
| Município do RN | Taxa de mortalidade | % |
| Galinhos | 237,6 | 45% |
| Rafael Godeiro | 272,7 | 36% |
| Tenente Laurentino Cruz | 203,7 | 35% |
| Janduís | 273,9 | 31% |
| Japi | 215,0 | 31% |
| Ouro Branco | 244,2 | 29% |
| Maxaranguape | 126,8 | 29% |
| Rafael Fernandes | 220,9 | 26% |
| Bodó | 303,6 | 26% |
| Pedro Avelino | 144,2 | 26% |
| São Pedro | 173,1 | 26% |
| Lucrécia | 171,9 | 25% |
| Baraúna | 122,6 | 25% |
| Espírito Santo | 65,9 | 23% |
| Jardim de Angicos | 205,2 | 23% |
| Itajá | 150,9 | 22% |
| São Bento do Trairi | 105,5 | 21% |
| São Fernando | 143,2 | 20% |
| Olho d´Água do Borges | 230,5 | 19% |
| Porto do Mangue | 57,4 | 17% |
Fonte: Observatório de Oncologia
