VENDAS DE CARROS SEGUEM PREJUDICADAS NO BRASIL POR FALTA DE ‘SEMICONDUTORES’ ATÉ O FINAL DE 2022


As vendas de carros no País em outubro mostraram mais um resultado fraco, pela falta de semicondutores (chips) que impede a indústria de atender à demanda. A menos de 40 dias de terminar 2021, o ritmo atual aponta para um desempenho anual frustrante, em torno de 300 mil unidades a menos do que as projeções divulgadas pela Anfavea (Associação das fabricantes) no início deste ano.

Os números indicam mercado pouco acima de 2 milhões de unidades, praticamente igual a 2020, que foi impactado pelo coronavírus. Para piorar, o presidente daquela entidade alertou que a escassez de “chips” pode se prolongar até o fim de 2022 e ainda se somar a problemas financeiros esperados.

A Anfavea lembrou que uma consultoria revisou para cima a perda de produção este ano por conta da falta de “chips”. Os fabricantes em todo o mundo devem produzir 12 milhões de carros a menos do que estava programado no início de 2021. E, para 2022, estima-se novas perdas de 5 milhões de unidades. “A falta de chips continua sendo o maior desafio. Tínhamos a previsão de que o fornecimento deveria se normalizar até o meio de 2022, mas a indicação é que a escassez deve afetar a produção até o fim de 2022. Em 2020, tivemos o problema de saúde pública com o coronavírus, agora vivemos as sequelas desse período, com gargalos de logística e falta de componentes para produzir que se prolongam a cada mês”, avalia Luiz C. Moraes. Ele explica que a falta chips afeta os fornecedores de todos os tipos de módulos eletrônicos utilizados em escala, cada vez maior nos carros atuais. Segundo Moraes, a cada dia aparece um novo problema, tanto de fornecimento quanto de logística, como foi o caso da greve dos caminhoneiros no Porto de Santos. Algumas empresas estavam com as mercadorias liberadas, mas não conseguiram tirar componentes de lá. Espera-se que isso não se repita, pois causa paralisações e piora a situação das fábricas.

O maior problema vivido pelas montadoras no momento é programar a produção de sua longa cadeia de suprimentos. Sem a certeza de contar com os componentes para produzir, o ritmo precisa ser ajustado a todo momento, algumas linhas precisam ser paralisadas, veículos ficam no pátio a espera de peças funcionários são afastados.

Para além da falta de “chips” e componentes, como pneus, a deterioração da economia com alta continuada da inflação, dos juros e do dólar em nada favorece o desempenho do setor. As perspectivas estão piores, o cenário para 2022 não é bom, falase em baixo crescimento ou até em queda do PIB. O desemprego é muito alto, apenas 90 milhões de pessoas estão ocupadas. A taxa média de juros do crédito direto ao consumidor está em 23,9% ao ano, o maior nível desde junho de 2017.

“Quando superarmos a falta de componentes, nossa preocupação será com uma possível redução da demanda. Esperamos por crescimento, mas Governo e Congresso devem fazer sua parte para não piorar a economia. Está no horizonte a agenda eleitoral de 2022, que não pode ficar acima das agendas econômica, social e de reformas. Espero que Brasília perceba isso o mais rápido possível”, defende Moraes.

A Anfavea divulgou os resultados consolidados da indústria no dia 8 deste mês, mostrando que os volumes de vendas de outubro e do acumulado de 2021 foram os piores dos últimos 5 anos. Desde 2016 não se via números tão baixos. Foram 162.300 veículos leves e pesados vendidos no mês, número 4,7% maior que o de setembro, até agora, o pior mês de 2021, e expressivos 24,5% abaixo do verificado em outubro de 2020. Com isso, as vendas de 10 meses totalizaram 1.740.000 unidades, ainda 9,5% acima do mesmo intervalo de 2020, mas esse crescimento não deve ser sustentado até o fim deste ano. Os estoques continuam nos mais baixos níveis históricos: os pátios de fabricantes e concessionárias tinham 93.500 carros em outubro, o equivalente a apenas 17 dias de vendas no ritmo atual, o normal é algo como o dobro disso. “Vamos tentar fechar novembro e dezembro no melhor patamar possível para atender a demanda, mas seguimos com volumes muito abaixo da média de 2019 e do 2° semestre de 2020”, avaliou Moraes, que estima que o ritmo atual de produção e vendas está no meio entre a melhor e pior das duas hipóteses projetadas pela entidade em outubro, quando as previsões do ano foram revisadas para baixo em função da falta de semicondutores.

Segundo essas estimativas, se a produção alcançar a média de 160.000 unidades-mês no último trimestre de 2021, para demanda doméstica e exportações, será suficiente para sustentar um mercado interno anual de 2,04 milhões de veículos (incluindo nacionais e importados), volume 330.000 unidades abaixo do previsto no início deste ano pela Anfavea. A 2a hipótese, mais otimista, seria produzir 190 mil mês no período, o que elevaria a previsão de vendas no País para 2.120.000, 250.000 abaixo do projetado em janeiro deste ano.

Desempenhos desiguais

O desempenho das vendas continua muito desigual entre os diversos segmentos do mercado brasileiro. De forma geral, o resultado de veículos comerciais é melhor que o de modelos leves e pesados.

O segmento de automóveis, que de janeiro a outubro representa 73,4% do nosso mercado, com 1.280.000 unidades, é o mais afetado pela falta de chips e o que menos cresce: apenas 2,6% sobre 2020. As vendas de vans, ainda sob o impacto do coronavírus, estão 3,8% abaixo do mesmo período de 2020. É a única categoria com desempenho negativo, parecido com os ônibus, com apenas 11.800 vendas e pequeno avanço anual de 3,8%.

O oposto acontece com furgões, caminhões e pick-ups que, em 10 meses registraram alta nas vendas sobre 2020 de 50,4%, 37,8% e 32,9%. O desempenho desses segmentos vem sendo puxado pela expansão das entregas urbanas no caso de modelos comerciais leves de carga, o que explica o avanço ainda maior, de 46%, dos furgões grandes, e pelo agronegócio que concentra as compras em modelos extrapesados. O crescimento das pick-ups, especialmente as de maior porte, mais 36%, é mais intenso nas regiões dominadas pelo agronegócio. São modelos usados para transporte pessoal/familiar.