HOSPITAL DE MACAÍBA REGISTRA SURTO DE BACTÉRIAS MULTIRRESISTENTES COM 15 PACIENTES E OITO ÓBITOS
Um surto de microrganismos multirresistentes atingiu pacientes do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, entre maio e julho deste ano. Relatório interno da unidade registra 16 ocorrências de infecção ou colonização envolvendo 15 pacientes e aponta oito óbitos no período. A Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), no entanto, afirma que não é possível atribuir diretamente as mortes às bactérias identificadas. O caso foi inicialmente divulgado pelo g1 RN e confirmado pela TRIBUNA DO NORTE.
O documento, elaborado pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), classifica o episódio como um incidente epidemiológico crítico, com aumento abrupto de culturas positivas para microrganismos multirresistentes. Os casos foram identificados inicialmente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e depois se expandiram para a Clínica Médica.
A análise epidemiológica registra oito mortes até 29 de julho. O relatório identifica casos envolvendo Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae, inclusive cepas resistentes. A tabela do relatório, porém, não estabelece que as infecções tenham sido a causa direta dos óbitos.
Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE nesta quinta-feira (20), a secretária adjunta de Saúde do RN, Leidiane Queiroz, afirmou que os pacientes atendidos na UTI de Macaíba já chegam, em geral, com quadros clínicos graves. “Nenhum desses óbitos dá para dizer que estaria ligado a essa infecção diretamente. Se você está dentro de uma UTI, com uma doença já terminal, e você adquire uma infecção, você tem um comprometimento maior, vai precisar de um tratamento mais prolongado e isso pode contribuir para um desfecho desfavorável”, explicou.
Durante a entrevista, Leidiane destacou principalmente a Klebsiella associada à KPC. “Essa bactéria também é muito conhecida como superbactéria”, disse. Segundo ela, todos os pacientes tiveram acesso ao tratamento indicado para os respectivos quadros.
O documento mostra que alguns dos primeiros pacientes já chegaram ao hospital com bactérias identificadas em outras unidades, como o Hospital Belarmina Monte, o Hospital Lindolfo Gomes Vidal, a UPA Pajuçara e a UPA de Macaíba. Em seguida, passam a aparecer registros classificados como infecção hospitalar do próprio Alfredo Mesquita.
Leidiane confirmou que houve transmissão cruzada dentro da unidade. “Esses pacientes do relatório foram os pacientes que chegaram sem bactéria e adquiriram a bactéria no hospital”, afirmou. Ela explicou que a transmissão pode ocorrer por contato, inclusive por falhas de higienização das mãos, troca inadequada de EPIs ou compartilhamento de materiais entre leitos.
“Se um técnico de enfermagem fizer o atendimento e, por alguma razão, não fizer a higienização adequada, não trocar os EPIs ou levar um material de um leito para o outro, aí pode ser que a bactéria vá. [...] São diversas as formas”, explicou.
Relatório aponta problemas estruturais e operacionais
O documento interno atribui o avanço do surto a uma combinação de fatores, entre eles déficit crônico de recursos humanos, sobrecarga das equipes, ausência de leitos específicos de isolamento em determinados setores, inadequações do espaço físico e mobiliário danificado ou compartilhado. Segundo a CCIH e o NSP, essas condições comprometeram as barreiras de isolamento e favoreceram a transmissão.
As rondas também registraram umidade e mofo nas paredes de enfermarias, leitos, colchões e cadeiras danificados, problemas no expurgo, falhas na limpeza e compartilhamento de equipamentos entre pacientes. O relatório cita ainda resistência de profissionais ao uso completo dos EPIs e dificuldades na comunicação e na visualização de resultados de exames.
A secretária adjunta afirmou que, atualmente, a UTI não apresenta déficit de profissionais. “Mais recentemente, a gente reforçou mais uma vez o pessoal para a UTI de lá e, nesse momento, não tem déficit de profissional no hospital”, disse. Sobre a infraestrutura, Leidiane contestou a ideia de que a UTI seja inadequada. “A infraestrutura da UTI é, de certo modo, adequada. Inclusive, ela é uma UTI habilitada”, afirmou.
Ela reconheceu, porém, que podem existir problemas pontuais em áreas do hospital. “Você pode encontrar alguma área com alguma limitação, pode. Agora, a gestão, com certeza, já está agendando o devido serviço de organização”, disse. Segundo a secretária, áreas afetadas por umidade após o período de chuvas estão passando por serviços de pintura e manutenção.
Leitos foram bloqueados
Durante o enfrentamento do surto, o plano de ação determinou restrições de circulação de pacientes entre a UTI e a Clínica Médica, além da orientação para evitar novas internações nos setores afetados até a contenção do quadro. Leidiane confirmou que houve bloqueios temporários de leitos. “Para que a equipe possa fazer a desinfecção terminal, ou seja, uma desinfecção mais demorada, um período de tempo precisa estar temporariamente bloqueado”, explicou.
O plano também estabeleceu rastreamento diário de resultados laboratoriais, reforço de EPIs, intensificação da higienização, controle da circulação de acompanhantes e separação das equipes responsáveis pelos pacientes infectados ou colonizados.
Sem novos casos
Os dois últimos isolamentos microbiológicos positivos registrados no documento ocorreram em 28 de julho. O relatório previa o encerramento do regime de contingência em 12 de agosto, caso não fossem identificados novos casos durante 15 dias consecutivos.
Segundo Leidiane Queiroz, não surgiram novos casos relacionados ao episódio desde então. “Não tiveram novos casos, pelo menos a informação que eu recebi da equipe”, afirmou.
Dos 15 pacientes relacionados ao surto, dois permaneciam internados no hospital até a manhã desta quinta-feira. Uma paciente já estava na enfermaria, sem sinais de colonização nos exames mais recentes e sem uso de antibióticos. Outro paciente permanecia na UTI e teve o tratamento prolongado por decisão do infectologista.
“Isso não quer dizer que ele esteja contaminando os demais pacientes. Quer dizer que ele ainda está concluindo o esquema medicamentoso reforçado pelo profissional da infectologia”, explicou a secretária.
O relatório conclui que problemas processuais e estruturais crônicos contribuíram para fragilizar as barreiras preventivas e favorecer a transmissão cruzada dos microrganismos. Ao mesmo tempo, aponta que as medidas emergenciais conseguiram interromper novas notificações a partir de 28 de julho.
TRIBUNA DO NORTE
