AOS 97 ANOS, POTIGUAR QUE VIVEU A DITADURA CONVOCA ELEITORES EM DEFESA DA DEMOCRACIA
Aos 97 anos, Francisca da Rocha Silva, conhecida como dona Chiquinha, decidiu reunir as forças que ainda tem para ir às urnas no próximo domingo. Acompanhada por familiares, ela pretende votar em Luiz Inácio Lula da Silva e faz um apelo às pessoas de sua geração e às mais jovens para que não esqueçam o sofrimento vivido durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).
Em um depoimento em vídeo, a potiguar relaciona sua decisão de votar à prisão do marido, Luiz Jeremias da Silva, em abril de 1964. Trabalhador da construção civil e dirigente sindical em Macau, no litoral potiguar, ele foi preso no início da ditadura e levado ao 16º Regimento de Infantaria (16º RI), em Natal, segundo o relato de Francisca.
“Vou votar, unir todas minhas forças que ainda me restam para andar, segurando no braço da minha família, mas vou votar em Lula”, afirma.
A fala de dona Chiquinha não se limita à lembrança da violência sofrida pela família. Ela convoca quem viveu aquele período a recordar as dificuldades e as privações e a considerar o que mudou desde então. Ao mencionar a alimentação dos filhos e a possibilidade de encontrar leite, carne e ovos na geladeira, ela associa a memória da fome à preocupação com as condições de vida das famílias brasileiras.
“Obrigado vocês, porque eu vou pela última vez votar por mim, não, por vocês”, diz no vídeo.
A prisão do marido em 1964
Luiz Jeremias da Silva foi preso em 25 de abril de 1964, segundo o relato de dona Chiquinha. Ela conta que ele estava deitado em casa quando os agentes chegaram para levá-lo. A prisão ocorreu poucas semanas depois do golpe que depôs o presidente João Goulart e instaurou a ditadura militar no Brasil.
A trajetória sindical de Luiz Jeremias é registrada em documentação histórica. O livro Rastros do Autoritarismo, de Francisco Carlos Oliveira de Sousa, identifica Luiz Jeremias da Silva como segundo secretário do Sindicato da Construção Civil na composição do Conselho Sindical de Macau, em 1960. A informação tem como referência a Circular 001/60, preservada no arquivo da Câmara Municipal de Macau.
O Conselho reunia representantes de diferentes categorias profissionais e buscava articular reivindicações dos trabalhadores da cidade salineira. A presença de Luiz Jeremias nessa estrutura ajuda a dimensionar sua atuação na organização sindical antes do golpe.
Segundo Francisca, o marido também atuava no Partido Comunista, onde teria exercido a função de tesoureiro. Ela afirma que ele foi levado ao 16º RI, em Natal, e submetido a torturas durante a prisão.
“Ele tava deitado em casa quando foi preso”, recorda.
Francisca também relata que o marido era discriminado por causa da cor da pele. A experiência da família, portanto, reúne a perseguição política e a discriminação racial, aspectos que precisam ser considerados na reconstrução de sua história.
Luiz Jeremias foi libertado em 20 de maio de 1964, de acordo com o relato familiar.
O 16º RI e a repressão no Rio Grande do Norte
A prisão de Luiz Jeremias ocorreu em um contexto de perseguição a dirigentes sindicais, estudantes, trabalhadores e outras pessoas consideradas opositoras ao novo regime. No Rio Grande do Norte, o 16º Regimento de Infantaria, em Natal, foi um dos locais utilizados para deter presos políticos após o golpe.
Documentos reunidos por pesquisadores e pela Comissão da Verdade da Universidade Federal do Rio Grande do Norte registram prisões e interrogatórios realizados em instalações militares e apontam a atuação dos órgãos de repressão contra organizações sindicais e movimentos populares.
O Relatório Veras, que reúne investigações sobre a repressão no estado, documenta a perseguição a pessoas ligadas aos meios sindical, estudantil, intelectual e à administração pública. Esses registros ajudam a compreender o contexto em que trabalhadores organizados, como Luiz Jeremias, foram atingidos pela repressão.
No caso dele, entretanto, a confirmação documental dos detalhes da prisão e das torturas depende da localização de registros específicos, além do testemunho de Francisca.
Uma memória que atravessou décadas
Luiz Jeremias morreu em 1995. Antes de morrer, segundo Francisca, pediu à família que não abandonasse a defesa do comunismo.
A lembrança desse pedido atravessa o depoimento da viúva e ajuda a compreender por que a decisão de votar, aos 97 anos, tem um significado que vai além do comparecimento às urnas. A escolha de Francisca está ligada à memória de uma vida familiar marcada pela prisão política e à preocupação com o futuro das novas gerações.
No vídeo, ela fala diretamente às pessoas que têm filhos e lembra as dificuldades de quem não tinha o que colocar à mesa. Sua mensagem parte da experiência de quem acompanhou de perto as consequências da repressão e das privações, sem separar a memória do passado das condições de vida no presente.
“Vocês não esqueçam de votar no domingo em Luiz Inácio da Silva”, pede.
Ao final, Francisca afirma que espera morrer contente se as pessoas ouvirem seu apelo. A fala é a de uma mulher idosa que reconhece os limites do próprio corpo, mas decide fazer o esforço de ir votar e compartilhar publicamente uma lembrança que considera importante.
“E vou morrer contente em saber que vocês ouviram esse pedido dessa velha que está pedindo de todo coração, e porque gosta de vocês e tem pena desse sofrimento que vocês já sofreram.”
Aos 97 anos, dona Chiquinha transforma a memória da prisão do marido em um chamado público. Seu depoimento lembra que a história da ditadura também foi vivida dentro das casas, por mulheres e famílias que enfrentaram a ausência, o medo e as consequências da perseguição política.
Luiz Jeremias morreu em 1995. Antes de morrer, segundo Francisca, pediu à família que não abandonasse a defesa do comunismo.
A lembrança desse pedido atravessa o depoimento da viúva e ajuda a compreender por que a decisão de votar, aos 97 anos, tem um significado que vai além do comparecimento às urnas. A escolha de Francisca está ligada à memória de uma vida familiar marcada pela prisão política e à preocupação com o futuro das novas gerações.
No vídeo, ela fala diretamente às pessoas que têm filhos e lembra as dificuldades de quem não tinha o que colocar à mesa. Sua mensagem parte da experiência de quem acompanhou de perto as consequências da repressão e das privações, sem separar a memória do passado das condições de vida no presente.
“Vocês não esqueçam de votar no domingo em Luiz Inácio da Silva”, pede.
Ao final, Francisca afirma que espera morrer contente se as pessoas ouvirem seu apelo. A fala é a de uma mulher idosa que reconhece os limites do próprio corpo, mas decide fazer o esforço de ir votar e compartilhar publicamente uma lembrança que considera importante.
“E vou morrer contente em saber que vocês ouviram esse pedido dessa velha que está pedindo de todo coração, e porque gosta de vocês e tem pena desse sofrimento que vocês já sofreram.”
Aos 97 anos, dona Chiquinha transforma a memória da prisão do marido em um chamado público. Seu depoimento lembra que a história da ditadura também foi vivida dentro das casas, por mulheres e famílias que enfrentaram a ausência, o medo e as consequências da perseguição política.
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