PESQUISADOR DA UFRN CRIA APARELHO PARA REDUZIR RUÍDO DE TURBINAS EÓLICAS


O crescimento da produção de energia eólica no Rio Grande do Norte também traz desafios para quem vive nas proximidades dos parques de geração. Entre eles está o ruído produzido pelos aerogeradores, especialmente um tipo de som pulsante que pode se tornar incômodo durante a noite e interferir na qualidade do sono. Para enfrentar esse problema, uma startup potiguar desenvolveu uma tecnologia que busca reduzir a percepção desse ruído sem exigir que as turbinas diminuam seu funcionamento.

Felipe Neves é o fundador da startup Jupitera, incubada no Instituto Metrópole Digital (IMD) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e no Metrópole Parque. O pesquisador criou o PER (Perturbador de Envelope Rítmico), equipamento compacto que deverá ser instalado dentro das residências, especialmente nos quartos. A proposta é atuar sobre a característica rítmica do som que chega dos parques eólicos, sem interferir na operação dos aerogeradores.

A ideia surgiu durante uma aula de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Gestão, Inovação e Sustentabilidade (PROPGIS) da UFRN, quando um professor mencionou as reclamações de moradores que viviam próximos a parques eólicos e enfrentavam dificuldades para dormir. O que chamou a atenção do pesquisador foi justamente o fato de que o barulho nem sempre era alto, mas permanecia pulsando durante a noite.

Decidido a compreender melhor o problema, Felipe visitou comunidades no entorno dos parques e conversou com moradores. Nas visitas, ouviu histórias de pessoas que já identificavam mudanças no vento pelo ritmo do barulho das turbinas e de famílias cujas crianças acordavam durante a madrugada.

Uma das conversas, segundo ele, ajudou a compreender a dimensão do problema e a necessidade de buscar uma solução que não colocasse a geração de energia e a qualidade de vida dos moradores em lados opostos.

“O que mais me marcou foi perceber que ninguém ali era contra a energia eólica. As pessoas tinham orgulho do que o Rio Grande do Norte representa para o Brasil. Elas só queriam voltar a dormir”, relata.

O pesquisador também procurou ouvir as empresas responsáveis pelos parques eólicos. Segundo Felipe, o setor tem interesse em resolver os conflitos relacionados ao ruído, mas dispõe de poucas ferramentas para isso. Atualmente, uma das principais alternativas diante das reclamações é reduzir a operação das turbinas, o que implica produzir menos energia.

“Foi aí que veio a virada: se o que incomoda é o ritmo, e não só o volume, então a solução precisa agir sobre o ritmo, dentro de casa, sem parar o vento”, explica.
Equipamento não interfere no funcionamento das turbinas

O diferencial do PER está na forma como pretende combater o incômodo. Em vez de tentar eliminar completamente o som ou abafá-lo com outro ruído, o equipamento atua sobre o chamado envelope rítmico, que corresponde à variação da intensidade sonora ao longo do tempo.

É essa alternância que produz a sensação de um som repetitivo, semelhante a um “vuuum… vuuum”, provocado pela passagem das pás dos aerogeradores. Segundo Felipe, essa característica pode ser especialmente perturbadora durante o período de descanso.

“O PER não mexe nas turbinas nem nas pás, e essa é justamente a sua força. O parque continua gerando energia normalmente”, afirma.

Instalado dentro da residência, o equipamento trabalha sobre o ambiente acústico do quarto e busca desfazer a regularidade rítmica percebida pelo cérebro. A intenção é reduzir os despertares noturnos e melhorar a qualidade do sono sem exigir alterações na operação dos parques.

O projeto-piloto prevê a participação de moradores, com um grupo de controle que receberá dispositivos inoperantes, sem que os participantes saibam qual equipamento estão utilizando. A pesquisa também acompanhará indicadores objetivos do sono e do organismo, como actigrafia e variabilidade da frequência cardíaca.

“Vamos provar isso com ciência de verdade”, diz Felipe, ao explicar a metodologia prevista para avaliar os resultados do equipamento.
 
Primeiros equipamentos devem chegar às casas em 2027

O PER já passou por simulações computacionais e verificações em bancada do princípio de funcionamento. A equipe também desenvolveu um protótipo físico em escala real, produzido por impressão 3D.

Atualmente, o projeto está na fase de prova de conceito, entre os níveis 3 e 4 de maturidade tecnológica (TRL), escala utilizada para avaliar o desenvolvimento de novas tecnologias.

Os próximos passos incluem testes em ambiente controlado na UFRN, no Instituto Metrópole Digital, e a continuidade do diálogo com as comunidades próximas aos parques eólicos.

A previsão é que os primeiros equipamentos sejam instalados nas residências em 2027, durante um projeto-piloto com voluntários. A expectativa do pesquisador é que a tecnologia esteja pronta para chegar ao mercado em aproximadamente nove meses a um ano.

“Em 2027 os primeiros PERs vão entrar nas casas, no piloto com voluntários. Nossa meta é ter o equipamento pronto para chegar às residências em cerca de nove meses a um ano”, afirma.