BRASILEIROS LIGAM MENOS E TROCAM O “ALÔ” POR ÁUDIOS E MENSAGENS


A tradicional ligação telefônica está perdendo espaço na rotina dos brasileiros. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que o uso de chamadas de voz pelas redes móveis chegou, em 2026, ao menor nível da série histórica: são, em média, 19 minutos de ligações por usuário por mês, uma redução de 80% em relação a 2017.

Enquanto as chamadas convencionais diminuem, áudios, mensagens de texto, emojis e ligações feitas por aplicativos ganham cada vez mais espaço. WhatsApp, Facebook, Telegram e Signal já representam cerca de 55% do tráfego estimado de comunicação por voz no país.
 
Consumo de internet cresce enquanto ligações caem

A mudança no comportamento também aparece no consumo de dados móveis. Entre 2017 e 2026, a média mensal passou de 0,47 GB para 6,51 GB por usuário, um crescimento de 1.285%. O volume é suficiente para representar até dez horas de reprodução de vídeos.

O WhatsApp se tornou um dos principais responsáveis por essa transformação. Segundo estimativa da empresa de marketing digital Affinco, os brasileiros passam, em média, 34 minutos por dia no aplicativo.

Para muitos usuários, principalmente entre os mais jovens, o botão de chamada do celular deixou de ser uma ferramenta tão utilizada. A preferência passou a ser por formas de comunicação que permitem pensar antes de responder, enviar emojis, figurinhas, fotos e áudios.
 
Ligações desconhecidas viraram motivo de desconfiança

Além da mudança de hábito, o excesso de telemarketing, chamadas automáticas e tentativas de golpe também contribui para o abandono das ligações tradicionais.

Ari Lopes, gerente sênior para as Américas e especialista em estratégia de operadoras da Omdia, explica que a popularização dos aplicativos de mensagens facilitou o acesso a chamadas de voz gratuitas e ajudou a transformar a maneira como as pessoas se comunicam.

Segundo o especialista, as próprias operadoras contribuíram para esse processo ao oferecer, durante anos, franquias com acesso patrocinado a aplicativos como o WhatsApp.

André Gildin, sócio da consultoria RKKG, avalia que a transformação começou há cerca de uma década, quando as empresas de telecomunicações passaram a priorizar planos de internet e dados, deixando os minutos de voz em segundo plano.
Anatel permite novas medidas contra chamadas abusivas

A queda no uso das chamadas também ocorre em meio a medidas para combater ligações indesejadas. De acordo com a Anatel, as operadoras poderão adotar mecanismos próprios para identificar e reduzir chamadas potencialmente abusivas, incluindo ligações realizadas em massa, de curta duração ou com baixo índice de atendimento.

A agência afirma que a iniciativa busca combater chamadas automáticas, inoportunas e realizadas em larga escala, além de recuperar a confiança dos consumidores nas comunicações telefônicas.

A Vivo, por exemplo, utiliza desde 2024 uma ferramenta antispam baseada em inteligência artificial para identificar e bloquear chamadas consideradas inconvenientes. Segundo a operadora, cerca de 80 milhões de chamadas abusivas e fraudulentas são bloqueadas diariamente em sua base.
Ainda há quem prefira ouvir a voz do outro lado

Apesar da queda geral, as ligações continuam importantes para parte dos usuários. A estudante Fernanda Conde, de 24 anos, afirma que prefere conversar por telefone em situações pessoais e profissionais, principalmente pela possibilidade de esclarecer assuntos de forma imediata.

Já a estudante Joana Harvey também considera a ligação mais prática em determinadas situações. Para ela, falar ao telefone evita a espera por respostas e reduz o risco de uma mensagem ser interpretada de maneira diferente por falta de entonação.

O cenário, portanto, não representa necessariamente o fim das ligações, mas uma mudança na função que elas ocupam na vida digital. Com aplicativos concentrando mensagens, chamadas de voz e vídeo em um único ambiente, o tradicional “alô” passou a disputar espaço com áudios, emojis e mensagens instantâneas.