O ACAMPAMENTO MARIA DULCE E A LUTA POR DIGNIDADE NO VALE DO AÇU
Quem passa pela BR-304, em Açu, vê de longe as barracas de lona preta do Acampamento Maria Dulce. Muita gente observa aquela paisagem e segue viagem sem saber quem são as pessoas que vivem ali e quais motivos as levaram a ocupar aquele espaço. Para alguns, trata-se apenas de mais uma ocupação de terra. Mas, quando se conhece a história das famílias acampadas e a realidade da região, fica evidente que o Acampamento Maria Dulce representa muito mais do que isso. É um lugar onde trabalhadores e trabalhadoras rurais buscam firmar suas vidas diante das dificuldades impostas pela concentração de terra, pela falta de oportunidades e pelo abandono de áreas que deveriam servir à população.
O acampamento foi instalado em um terreno ao lado de uma fazenda improdutiva da empresa multinacional Del Monte. Depois de décadas de atuação na área, hoje a fazenda encontra-se abandonada, sem cumprir qualquer função social. Enquanto isso, dezenas de famílias enfrentavam o desemprego, a insegurança alimentar e a falta de perspectivas para continuar vivendo e trabalhando no campo. Foi nesse cenário que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizou a ocupação da área, em abril de 2026, transformando um espaço ocioso em um local de moradia, convivência e organização comunitária.
A história do Acampamento Maria Dulce está diretamente ligada às contradições existentes no Vale do Açu. A região é conhecida nacionalmente pela produção de frutas destinadas à exportação. Grandes empreendimentos agrícolas ocupam extensas áreas de terra e utilizam grandes volumes de água para abastecer o mercado externo. Ao mesmo tempo, muitos trabalhadores rurais convivem com empregos temporários, baixos salários e frequentes períodos de desemprego. Quando a produção diminui ou as empresas reduzem suas atividades, centenas de famílias ficam sem renda e sem alternativas.
Não por acaso, muitos dos moradores do Acampamento Maria Dulce já trabalharam em empresas ligadas à fruticultura irrigada. São homens e mulheres que dedicaram anos de suas vidas ao trabalho no campo, mas que encontraram dificuldades para garantir o próprio sustento quando perderam seus empregos. O acampamento surgiu justamente como uma tentativa de construir um caminho diferente, baseado na organização coletiva e na busca por autonomia.
Um dos aspectos mais marcantes da experiência do Acampamento Maria Dulce é a capacidade de organização das famílias. Mesmo enfrentando condições difíceis, a comunidade desenvolveu formas de garantir o funcionamento do acampamento e atender às necessidades mais básicas dos moradores. Em vez de cada família enfrentar os problemas sozinha, as soluções são construídas coletivamente.
Outro aspecto importante é a forma como a comunidade organiza sua convivência interna. O acampamento não funciona de maneira improvisada. Existem responsabilidades compartilhadas, reuniões periódicas e mecanismos coletivos de tomada de decisão. As famílias participam da construção das regras de convivência e da organização das atividades necessárias para manter o espaço funcionando.
As crianças e os jovens ocupam um lugar central nessa experiência. Mesmo diante das dificuldades, existe a preocupação em garantir acesso à educação e criar espaços de convivência e aprendizagem. As chamadas cirandas infantis ajudam no acolhimento das crianças menores, enquanto a comunidade continua reivindicando melhores condições de transporte e acesso às escolas da região. Essa preocupação demonstra que a luta das famílias não está voltada apenas para o presente, mas também para o futuro das novas gerações.
O Acampamento Maria Dulce mostra que a questão agrária vai muito além da posse da terra. O que está em discussão é o direito de viver com dignidade, de produzir alimentos, de permanecer no campo e de ter acesso aos recursos necessários para a reprodução da vida. A experiência dessas famílias revela que existem pessoas dispostas a construir alternativas mesmo diante de grandes dificuldades.
Apoiar o Acampamento Maria Dulce não significa apenas apoiar uma ocupação de terra. Significa reconhecer a realidade de trabalhadores rurais que buscam uma oportunidade para viver e produzir. Significa compreender que áreas abandonadas e sem função social podem cumprir um papel importante quando colocadas a serviço da população. Significa, acima de tudo, defender a ideia de que o desenvolvimento de uma região deve beneficiar também aqueles que vivem e trabalham nela.
Por trás de cada barraca de lona preta existe uma história de trabalho (muito trabalho), de resistência e de esperança. Existem famílias que se recusaram a aceitar o abandono como destino e que decidiram se organizar para buscar uma vida melhor. Conhecer essa realidade é fundamental para superar preconceitos e compreender que, muitas vezes, a luta pela terra é também uma luta por respeito, por cidadania e por condições dignas de existência.
O Acampamento Maria Dulce permanece como um exemplo de organização popular em meio às desigualdades presentes no campo brasileiro. Mais do que um espaço de moradia provisória, ele representa a busca de centenas de pessoas por reconhecimento, oportunidades e justiça social. É por isso que sua história merece ser conhecida, debatida e apoiada.
Por Francisco Hiályson Fidelis Medeiros e Raphaela Cristina Andrade de Araújo*
